CANANÉIA A PARANAGUÁ PELO CANAL DO VARADOURO, por Flávio Soares de Camargo

Tempos idos, memória já não tão boa, o que facilita escrever, pois os pontos marcantes são os que ficaram…
Tinha um grupo de caminhada matinal, 10 km por dia, sem faltar. Nos dias chuvosos, guarda-chuva, mas não havia falhas. André Tomita, Nelson Massuda e eu, parceiros inseparáveis. Além das caminhadas, pescarias na represa de Igaratá, em meu barco da época, uma Ferrari de madeira da década de 1950, herança familiar, depois de eu completar o pagamento de uma colheitadeira de milho, quando faltou dinheiro para a fazenda quitá-la.

O sonho de navegar pelo “Canal do Varadouro”, que vinha sendo publicado na revista “Náutica”, foi se materializando devagarinho, pois o planejamento seria complicado.
Os tripulantes
O Nelson Massuda era deficiente visual, com opacidade completa de um olho e redução de 80% da visão do outro. O André Tomita, as filhas ficavam de olho nele e controlavam cada passo dele. Ambos, 5 anos mais velhos que eu.
O Canal do Varadouro
No Brasil Imperial, esta região era um local de estaleiros, devido ao rio Iguape, que descia da Mata Atlântica trazendo a madeira necessária para a construção naval, e entre Cananéia e Iguape eram vários ali instalados. Com a fundação de Paranaguá, um belo porto abrigado que começou a escoar a produção de café do Paraná, os estaleiros se mudaram para lá, e Iguape e Cananéia estagnaram e ficaram esquecidas pelo progresso.

Geograficamente, o local hoje chamado de “Lagamar”, cheio de canais, meandros e corixos, quase une a Baía de Paranaguá com o mar interior de Cananéia. Aí ficou a ideia de ligar um local ao outro com um canal artificial que seriam meros 6 km. Desta maneira, o comércio e o transporte naval uniriam o progresso de um local à estagnação do outro.
Dito e feito. Os planos deste canal datam de 1820, ainda Brasil Colônia, e os mapas plani-altimétricos de engenharia datam de 1828, Brasil Imperial. O início de sua dragagem iniciou-se na primeira metade do século passado, passando pela cidade de Ariri, ainda no estado de São Paulo. Ficou pronto e liberado para navegação em 1956. Porém, o progresso não aconteceu (felizmente), e hoje é um dos mais belos trajetos náuticos a serem explorados, pois ficam no PARQUE DO ENCANTADO e o LAGAMAR, um conjunto ambiental preservado e magnífico!


A Aventura… “lá pelos anos ‘90
A distância entre São José dos Campos e Cananéia, onde a navegação se iniciaria, seria de 354 km pela BR-116. Optei em ir pelo litoral, por Peruíbe, 400 km, pois a outra já era chamada de “estrada do desastre”, de tantos acidentes. Foi um passeio. Um Passat puxando uma carreta sem breque nas rodas, com 1 tonelada e meia de peso em cima. Foi uma boa ideia, estrada livre. Nesta época, já era outro o barco, uma Magnum 23 pés com motor Evinrude 175, um verdadeiro bólido náutico, navegadora excelente e muito leve.

Como a região de Cananéia é de pescadores, quando viram um novato chegando com um barco inadequado para o mar, fui ajudado por todo mundo. Deixei a “Ray Ban” ancorada num píer na rua principal, em frente à nossa pousada, barco abastecido.
No jantar, um belo restaurante, onde o peixe, logicamente, era o prato principal. Fomos abordados por um sem-número de pescadores que nos foram informando sobre o que enfrentaríamos. Era desanimador o panorama exposto, mas fez nossa curiosidade aumentar bem. O único problema: esta seria uma semana de muita chuva… O barco tinha uma capota para sol, não para chuva. Estávamos levando capas, mapas do local e um GPS bem primitivo.
Madrugada, um café da manhã na pousada, cruzamos a rua principal e… uma neblina impenetrável. Esqueci de mencionar que o terceiro membro do grupo, o André, foi vetado pela família. Enfim, somente o Nelson e eu. Isto diminuiria o número de pilotos do barco, devido à deficiência visual do Nelson. Porém, ele tinha um dom que seria fundamental: era um tocador de gaita espetacular.
Dez horas da manhã, chovendo pacas. Mapas guardados, GPS ligado, motor ligado, check de tudo. Fomos em frente, água descendo. Fiquei na espera do GPS localizar os satélites, enquanto ia contornando a cidade para pegar o primeiro braço do Lagamar que, na verdade, é um mar interior. É gigante, todo em matas de mangue e igual a um labirinto. E nada do GPS localizar os satélites. O que fazer? Eu tinha levado os mapas em papel, protegidos por plástico, mas quem iria lê-los? Pensei um pouco e trocamos de lugar. O Nelson iria pilotando devagar o barco e eu iria lendo os mapas, orientando-o no grito. Fiz a felicidade eterna do meu amigo. Abriu um sorriso de orelha a orelha: -“Deixa comigo, Flávio, eu cuido de você” (????)
Por incrível que pareça, deu certo. Éramos o bólido mais lento do Lagamar. Só tínhamos 120 km pela frente de navegação!!!!
Perto de Ariri, saímos do braço principal e entramos no corixo que dava para a boca do Canal do Varadouro. A Ilha do Cardoso à nossa esquerda, bombordo em linguagem náutica. Fizemos uma parada numa comunidade caiçara, Marujá, cruzamos a pé a ilha e fomos dar uma olhada no Oceano Atlântico. Meros duzentos metros de caminhada. Um lanche. Tínhamos bastante comida a bordo para enfrentar o desconhecido por 2 dias de navegação.
Um detalhe que, para nós, não tinha significado algum devido à nossa velocidade: um sem-número de ubás que cruzávamos o tempo todo, carregados de bananas, estudantes, animais etc. A vida ribeirinha ali é muito grande e o cuidado com a esteira do barco é fundamental para não causar um desastre. O transporte aquático é o único modo de locomoção ali.
Em Ararapira, uma aldeia abandonada, ruínas e uma singela capela são a marca de entrada do braço para Arari, um local isolado, perto do nada, vila de pescadores e algum turismo de pesca.
Seguimos adiante e entramos no canal.
Esperamos ali a maré estar cheia, pois o canal é cheio de bancos de areia. Estava bastante assoreado por falta de manutenção. Não se via mais traço algum dos serviços de dragagem feitos há quase cem anos. Rabeta do motor levantada, somente o hélice dentro d’água, e fomos embora raspando o casco no lodo do fundo do canal. Nosso entorno era um espetáculo: pássaros em penca, animais de todos os tipos nas barrancas. Fui aprendendo a ver onde era mais fundo pelo movimento das águas. Ali tem maré e, portanto, correnteza suave. Como o fundo era lodoso, quando raspava o fundo era dar um toque no manete e o barco seguia em frente. Aí eu já estava no comando. Navegação cuidadosa e difícil. O lodo faz um ruído suave e a areia, um áspero. No lodo continuávamos; na areia, o melhor era dar ré para não encalharmos. Foi um alívio quando terminou o Canal do Varadouro e entramos na Baía de Paranaguá, cheia de reentrâncias, com a Ilha do Pinheiro, Ilha das Peças, Ilha do Superagui (Parque Nacional) e Ilha do Mel, famosa por ser ponto turístico importante.
Aqui, alguma civilização caiçara mais densa.

Nosso objetivo era a cidade de Guaraqueçaba, não confundir com Baraqueçaba. Esta, no Estado de São Paulo, ao lado de São Sebastião. Guaraqueçaba, fundação em 1545, a primeira vila do Paraná, virou cidade em 1880. Nome tupi-guarani (ave de plumas vermelhas). No meu planejamento, eu preferi Guaraqueçaba do que Paranaguá, esta um baita porto de navios oceânicos e nada tinha a ver com um mero barco de recreio. Curiosamente, a Baía de Paranaguá é extremamente rasa. Apenas o canal dos navios, que é dragado, tem profundidade suficiente. Meu profundímetro marcava 1,5 m de profundidade numa imensidão de água!
Tinha feito reserva num hotel beira-mar de nome Eduardo I (rei da Inglaterra, 1272-1307): um quarto com 2 camas. Atraquei o barco no píer em frente ao hotel no final da tarde. Lobby do hotel bastante simples e, para meu espanto, uma cama de casal!!! Meu parceiro, que sempre anda com a mão no meu ombro, percebeu algo diferente, apalpou a cama e começou a rir!! Hotel lotado: – “Vai ser complicada esta noite!” Nas aventuras tudo vale. Enquanto eu arrumava a tralha, ele foi para o terraço e deu seu show de gaita!
Banho tomado, vendo a paisagem, alguém bate na porta e grita: -“Assado, frito ou cozido?” Abri a porta e perguntei para o personagem o que significava aquilo. A resposta foi a mais confusa: -“Hoje é no alemão. Você gosta de peixe assado, frito ou cozido?” Uma curiosidade que não conhecíamos: a região é um santuário de pescadores, idem o hotel, e, no final da tarde, eles juntam os peixes no restaurante do alemão e servem a todos, cobrando um preço simbólico pelo serviço.
Dezenove horas. Lá fomos nós para o tal restaurante. Uma caminhada linda numa orla em cima de uma costeira de uns quinze metros de altura, em torno de uma gigantesca pedreira, com o mar batendo lá embaixo. Único problema é a conservação da calçada, que estava em péssimas condições. Uma sensação de velho e abandono em todo o entorno da cidade. Paranaguá era o “in” e Guaraqueçaba o “out”.

Restaurante lotado de pescadores e turistas, cada um contando suas vantagens, qual garotada depois de um jogo de futebol de várzea. O tal do alemão sabia cozinhar, uma delícia de refeição melhorada pelo tempero da fome, do bom humor e das aventuras de cada um.
Uma curiosidade: na frente do píer tinha um posto de gasolina, evidentemente para barcos, cheio de tanques de plástico na frente, com os nomes escritos neles e ninguém para atender. Perguntei para um dos pescadores como fazer para encher os meus tanques. A resposta me espantou: -“Deixe aí com o nome de sua lancha e, assim que amanhecer o dia, o frentista enche e deixa a conta grudada neles. É só colocar o dinheiro na caixinha da janela e ir embora. Se não tiver dinheiro, precisa ser em cheque!!!” -“Ninguém confere??” – foi minha pergunta. A resposta foi: -“E precisa?” Caramba, cada uma… No dia seguinte, dito e feito, lá estavam os tanques cheios.
Manhã seguinte, uma curiosidade: a maré havia baixado e todos os barcos estavam deitados na areia do fundo. Felizmente, eu havia levantado o motor no trim.
Café da manhã num bar ao lado, esperar a maré encher, barco boiando novamente, tralha a bordo e iniciamos a volta. Calculei mal a maré e a velocidade do barco, e acabamos numa maré vazante, num trecho extremamente largo, ao largo da Ilha do Pinheiro, local raso. Tentei andar mais rápido, mas inútil, bati num banco de areia, e o barco parou de chofre. Nada a fazer, esperar mais 2 hs para a maré vazante terminar e iniciar a enchente, mais 6 hs! Quando o barco deitou de lado, descemos e fomos passear em volta. Solo arenoso/lodoso e uma paisagem linda no entorno.
Ao longe, uma vilazinha caiçara com um nome esquisito que não me lembro, mas era meio sinistro. Almoçamos, o Nelson puxou a gaita e deu seu toque para passar o tempo. Devagarinho a maré encheu, o barco endireitou, motor ligado e fomos retornando até o Canal do Varadouro, Ariri e depois Cananéia. Chegamos à noitinha num cansaço extremo.
Sorte nossa, atracamos na frente da nossa pousada, que eu havia deixado reservada. Banho tomado e um sono merecedor.
Dia seguinte, barco encarretado e voltamos para São José dos Campos.
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Mais uma aventura, descrito com maestria pelo nosso escritor mor, o Flávio
Quando mesmo foi isso? Há muito tempo, pelo jeito dos barcos e do Passat
As filhas do seu colega André fizeram muito bem em interdita-lo. Imagine a loucura de sair para o mar dentro de uma densa neblina , mas está explicada a coragem do Flávio em sair pedalando com pouca visibilidade em SJC
Aguardamos novos relatos. Parabéns, Flávio.