quarta-feira, junho 19

MINI-BIOGRAFIA (não tão mini…), Franklin Amorim Sayão

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Franklin (nome em homenagem ao presidente norte-americano do fim da guerra), filho do sr. Ney (comerciante) e d. Susana (professora primária e educadora sanitária), primogênito de uma irmandade de três homens (eu + Cássio + Roberto), nascido na antiga Maternidade São Paulo da rua Frei Caneca, aos 2/5/45.

Primeira infância na região da rua Itapeva, travessa da Paulista, no tempo em que ainda existiam casas com grandes quintais, com árvores frutíferas e hortas caseiras, e as crianças podiam ir a pé ou de bonde para suas escolas, sem medo de serem roubadas, sequestradas ou abusadas…

Fiz o primário numa escolinha do bairro e, daí em diante, tornei-me um “produto” do Estado: ginásio no Caetano de Campos, científico no Fernão Dias de Pinheiros e faculdade na FMUSP… (fiz um ano de cursinho no 9 de julho). Talvez, por isso, meu compromisso em trabalhar com comunidades carentes…

Na faculdade, participei das inúmeras atividades proporcionadas pelo nosso CAOC! No fim do 1º ano, alfabetização de adultos pelo método de Paulo Freire, na região de Ubatuba, juntamente com a turma da Pedagogia da USP; no 2º ano, trabalho de campo para pesquisa de esquistossomose na região do Vale do Ribeira (em Roseira); no 3º ano, participação no MUD (Movimento Universitário de Desfavelamento); no 4º ano, diretor do jornal “o Bisturi”; no 5º ano, presidente do CAOC… Ah! que ano difícil! Ano de grande efervescência política e não havia ninguém do quinto ano para candidatar-se… E eu, sem nenhum perfil de líder político, fui alçado a tão problemático cargo à época!!! José Dirceu, presidente da UEE, Travassos, presidente da UNE, Fernando Henrique, professor na Filosofia da USP… Concorreu comigo, em candidatura “protesto”, outro senão o Mamed, que não estava nem aí para a política universitária… O fato é que fui eleito e fiquei entre dois fogos: a esquerda radical (época da Dilma e do sequestro de um embaixador) e a direita não tão radical…

Minha gestão foi a mais burocrática possível, evitando envolver-me politicamente, tanto que consegui escapar de ser o representante do CAOC no famoso Congresso de Ibiúna (onde foram presos 700 líderes universitários da época), pois estava de casamento marcado com a Rute para dezembro de 1968…

Uma vez formado, fiz um ano de residência de Preventiva com o Reinaldo, pois lá podíamos escolher as matérias do estágio e eu escolhi as que me preparassem melhor para atuar em cidades pequenas do interior… Tentamos ficar na região de Registro, onde havia um hospital novinho, mas sem médicos, mas o secretario da saúde não quis nos contratar por tempo integral e dedicação exclusiva…

Nossa equipe era formada por 5 médicos (eu e a Clara Brandao, de nossa turma e seu esposo Rubens, e o casal Clóvis e Beth, os três formados na Santa Casa). Acabamos ficando numa pequena cidade do norte de Goiás, atual Tocantins, de nome Miracema do Norte (6.000 habitantes na zona urbana e 30.000 no município), onde trabalhamos numa recém-inaugurada Unidade Mista de Saúde, com 30 leitos, ambulatórios, centro cirúrgico e sala de partos, Raio X e laboratório. Esta pequena cidade, em sua sede, tinha somente 3 casas com banheiro interno!!! As demais, fossa com casinha no fundo do quintal… Cada um de nós teve de construir banheiro com agua corrente retirada de poço através de bomba para uma caixa d`água de 1.000 litros… E nossa aventura na região durou 17 anos, lá tivemos e criamos 8 filhos e um primo, construimos uma maternidade com verba alemã da Misereor, passamos por uma enchente do rio Tocantins que derrubou 585 casas (a maioria de adobe); construimos 40 casas populares através de mutirão com verba da Visão Mundial, após a enchente; a equipe também criou um Centro de Recuperação Nutricional para crianças carentes, tudo isso com participação de toda a comunidade…

Um ano antes da divisão do estado de Goiás (1988), fomos chamados para trabalhar no Hospital Indígena da Missão Caiuá, em Dourados MS, e para lá fomos de mala, cuia e coragem… Lá ficamos 20 anos, Rute faleceu em 1998 de uma síndrome degenerativa vascular cerebral (Binswanger), diagnosticada em Botucatu, onde um sobrinho fazia residência de Neurologia, após 20 dias de internação e um ano de coma vigil!!!

Casei-me com Marina, em 1999, com a “benção” dos filhos e filhas, pois todos achavam que “não é bom que o homem esteja só”… E, de fato, ela tem sido uma benção em minha vida!

Aposentado desde 1987, retornei a SP pois já não aguentava mais o “puxadão” do Hospital Indígena… Estou ainda trabalhando meio período com o PSF de um posto da Prefeitura, bem próximo de casa, onde faço o que sempre fiz, ou seja, atendimento à comunidade da região…

Graças a Deus, permaneci fiel ao princípio de devolver ao povo brasileiro mais carente o muito que seus impostos me permitiram estudar e criar minha família (todos os filhos conseguiram ter formação universitária).

Agora é só “curtir” os onze netos e netas e aguardar a chamada do Senhor e, como o apóstolo Paulo, dizer “combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”!!!

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APÊNDICE PRODUZIDO PELO ADMINISTRADOR

Fotos da correspondência que está em comentários (leia abaixo)

6 comments

  1. Eduardo Berger 21 março, 2018 at 22:26 Responder

    “Adeus, nosso querido Doutor Frango”! Consta ter sido assim, que os indígenas da Missão Caiuá se despediram desse notável colega, quando de sua aposentadoria e retorno para terras paulistanas. Certamente o fizeram com com sentimento de reconhecimento e gratidão pelo seu significativo trabalho missionário. MAIS UM ORGULHO PARA A 52ª! http://www.douradosagora.com.br/…/adeus-dr-frango…

    http://www.douradosagora.com.br/noticias/entretenimento/adeus-dr-frango-gilson-n-ferreira

  2. admin 21 março, 2018 at 22:33 Responder

    Genial Franklin. Uma vida dedicada à medicina, ao próximo e à família. Quando digo : “Todos juntos na 52a Turma da FMUSP” penso que nossas vidas são contemporâneas da época fantástica que vivemos juntos. Nossas identidades, afinidades, particularidades e divergências de alguma forma também participaram da modulação de nosso interior neste mais de 50 anos. Nos meus propósitos de eternizar nossas vivências é conseguir que além de histórias pontuais. cada uma fizesse um breve relato do início acadêmico ao momento atual. Vocé um exemplo deste propósito. Parabéns. (ROBERTO ANANIA DE PAULA)
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    Franklin, mais um Médico com “m” maiúsculo mesmo da nossa querida 52ª. PARABÉNS!!! (DECIO R K OLIVEIRA)
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    Parabéns!!! Bela Vida, muito HUMANA!!! Obrigado por existir (ROBERTO CURY)
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    Muito bom Franklin. Parabéns por essa lição de vida. (MURILO P COELHO)
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    Bela ela trajetória, Franklin. É o orgulho de todos nós !! (BONNO VAN BELLEN)

  3. Noragi 22 março, 2018 at 10:01 Responder

    Ao amigo e companheiro de “panela” no internato. PARABÉNS pela digníssima “mini” biografia. Que o NOSSO GRANDE ORIENTADOR CONTINUE ILUMINANDO OS SEUS CAMINHOS ATÉ O APAGAR DAS LUZES TERRENAS JÁ A CAMINHO DO N I R V A N A.

  4. TANIA SANTOS MATOS 20 maio, 2019 at 13:07 Responder

    Trabalhar com o senhor foi muito bom homem de humildade indescritíva
    Aprendemos muito com o senhor só quero desejar tudo de bom que Deus continue o abençoando cada dia mais e mais .

  5. admin 30 dezembro, 2023 at 13:18 Responder

    RECEBEMOS HOJE DO AUTOR DESTA POSTAGEM, UMA CARTA QUE ELE ESCREVEU HÁ 34 ANOS E NUNCA ENVIOU…
    É UM NOTÁVEL TESTEMUNHO QUE COMPLEMENTA COM PROPRIEDADE SUA BIOGRAFIA!
    VEJA ABAIXO, LEIA E COMENTE!

    DOURADOS, dezembro de 1989

    Ao participar do jantar de comemoração de nossos vinte anos de formados, fiquei muito feliz em rever uma boa parte dos colegas de turma! Infelizmente não foi possivel conversar com todos, para saber de suas experiências pessoais na profissão, e da realização ou não dos objetivos traçados quando do término do curso. E o ambiente, que estava mais para comemoraçao do que para filosofia, não permitiu que cada um tomasse o microfone e contasse um pouco de si para os outros: foi o que faltou na festa na minha opinião! Tudo o mais estava muito agradável e a organização excelente!

    Assim, eu gostaria agora de compartilhar com cada um de vocês algumas bençãos com que Deus me agraciou nestes vinte anos, como ser humano e como médico: a primeira foi ter-me dado a Rute, uma esposa e companheira fiel e amiga. Estamos completando neste fim de ano a “maioridade conjugal”, ou seja vinte e um anos de casamento… As Escrituras Sagradas destacam a felicidade de um homem encontrar uma mulher que lhe seja complemento : “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias” (Provérbios 31 : 10)

    A segunda benção preciosa foram os oito filhos: Ricardo, Guilherme, Renato, Carmem Lucia, Ana Luiza, Julia Helena, Lidia Cristina e Ney… Diz a Bíblias: “Herança do Senhor são os filhos, o fruto do ventre seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava: não será envergonhado quando pleitear com o inimigo à porta” (Salmos 127 : 3 a 5). Estamos portanto cheios de flexas dezenove a seis anos de idade. Os três primeiros estarão fazendo vestibular este ano…

    A terceira benção foi termos sido alcançados pela luz maravilhosa do Evangelho, “a verdadeira luz que vinda ao mundo ilumina a todo homem” (João 1 : 9) e em 1978 fizemos profissão de fé na Igreja Presbiteriana do Brasil. E através da participação no trabalho da Igreja, viemos visitar a cidade de Dourados – MS, tendo aqui conhecido o ministério da “Missão Caiuá” entre os índios da região, e resolvemos nos mudar de Goiás, atual Tocantins, onde estivemos trabalhando por 17 anos… E aqui estamos há quase dois anotando tanto na área espiritual, quanto no atendimento de saúde, em nível ambulatorial e de internação hospitalar, junto a uma população de aproximadamente 6.500 indígenas.

    E finalmente a última benção tem sido o sustento que temos recebido da parte de Deus, como aconselha Sua palavra eterna: “…não me dês nem a pobreza nem a riqueza: dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que estando farto te negue e diga: quem é o Senhor? ou que empobrecido, não venha a furtar e profane o nome de Deus”. (Provérbios 30 : 8b a 9). Apesar de ter sempre trabalhado junto ao Estado, de ter ficado numa região pobre e ter muitos filhos e de agora estar trabalhando junto a missões indígenas, temos tido o necessário para viver e para criar os filhos dentro de um padrão razoável de vida!

    Espero, assim, que Você também olhe pra atrás e reconheça o que tem recebido do alto, mesmo que jamais se tenha voltado antes para o seu Criador! E se d’Ele estiver afastado, volte-se imediatamente para Ele pois as Escrituras nos recomendam: “Buscai amo Senhor enquanto se pode achar, invocai-O enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho e o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (Isaías 55 : 6 a 7),

    E que a paz de Deus esteja com Você e sua familia neste Natal e que o ano de 1990 seja um ano de crescimento espiritual pata toda sua casa: “Buscar-me-eis e me achareis quando buscardes de todo vosso coração” (Jeremias 29 : 13)

    Franklin, Rute e filhos

  6. eduardo berger 30 dezembro, 2023 at 13:44 Responder

    Franklin é um exemplo de dignidade: como médico, como missionário, como homem e como amigo.
    É gratificante para mim eternizar suas palavras através deste site!

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