quarta-feira, fevereiro 28

Um Educador Notável e o Pirralho Atrevido por Eduardo Berger

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Uma história de minha infância… pitoresca, talvez gostem.

Início da década de ’50, aluno de uma pequena escolinha da Vila Mariana, com pomposo nome: “Educandário Brasil”.

O tal estabelecimento de ensino ocupava um modesto sobrado, na Av Conselheiro Rodrigues Alves (apenas seis salas de aula), e era da propriedade de três irmãs, solteiras, de “meia idade”, todas professoras; elas mantinham um padrão de excelência, tornando a escola muito bem conceituada e concorrida, no bairro. Uma delas, Guaraciaba (!), foi minha “primeira professora”.

Ao término do 4º ano do primário, em plena comemoração do IV Centenário de São Paulo, por ter nascido num novembro, fiquei sabendo que não poderia prestar o exame para o ginásio… “não tinha a idade suficiente”. Foi quando descobri, no Largo de Moema, um tal professor Laurindo – extraordinário, um dos meus mestres inesquecíveis!! Atrás da Igreja, num casarão, com uma edícula do fundo de quintal, onde numa única sala de aula para uns 30 alunos, ele se tornou famoso, dando um curso de um ano, preparatório aos exames de admissão às escolas públicas (não era tarefa fácil obter vaga, mas os “alunos do Laurindo eram os favoritos”)

Fiz o exame de admissão para o C.E. Alberto Levy (provas realizadas no Grupo Escolar Cesar Martinez), também em Moema, junto aos trilhos do bonde “camarão” que ia para o vizinho município de Santo Amaro, zona sul. Passados alguns dias, fui ver o resultado; recém completados meus 11 anos, peguei o bonde (sozinho!), ali no Instituto Biológico. Ele desceu pelos trilhos, por sobre dormentes e pedregulhos, onde hoje é a Avenida Ibirapuera, adentrando uma “jângal” (mato, só!). Poucos segundos, “Parada Ipê”, mais um pouco “Parada Moema”, meu destino. Ali, naquela selva, uma clareira já bem urbanizada com alguns trechos de ruas calçadas.

Na entrada da escola citada, estava afixada uma lista datilografada com os aprovados, em ordem de classificação. Corri os olhos rapidamente, com a absoluta certeza que eu seria um deles – tinha a consciência que eu havia “acertado quase tudo” (estava muito bem preparado pelo Professor Laurindo, que tem lugar cativo no meu coração!). Decepção! Vontade de chorar… incredulidade total! Não me achei – continuei em frente ao quadro de avisos, li e reli algumas vezes, totalmente indiferente ao que acontecia à minha volta: explosões de alegria de alguns, ao lado de outros, que olhavam e partiam em silêncio para preparar-se para, quem sabe, no próximo ano…

De repente, inexplicável, pude notar que o terceiro colocado era um tal de Ricardo… BERGER! Sobrenome pouquíssimo comum, sobretudo nos dias de então – estranhei deveras – eu mesmo não conhecia ninguém com ele, além de meus familiares.

De imediato, dirigi-me à secretaria! Inimaginável: uma senhora, servidora do estado, atender aquele pirralho, 11 anos, sozinho, reclamando “sua vaga” numa escola pública! Pois bem, figura singular, ela pacientemente pegou uma cópia daquela lista, observou o ERRO, e corrigiu a falha das três letras: sai RIC, entra EDU – era eu o aprovado em 3º lugar! Ela me fez elogios, carinhos, me abraçou, quase choramos (ou choramos?) juntos…

Fui embora feliz. Minha mãe recebeu pelo correio (!) 0 comunicado de minha aprovação, e uma relação de escolas que eu poderia escolher. Entre elas, prontamente ela escolheu: ROOSEVELT!

Foi assim, acreditem.

6 comments

  1. Decio Kerr Oliveira 10 junho, 2022 at 01:10 Responder

    Quando me formei no Primário do Caetano de Campos, lá na Praça da República, meu pai me colocou no Dante Alighieri e provavelmente por não ter a idade para entrar no ginásio fiz o quinto ano do primário lá mesmo. Foi quando o Getúlio de suicidou e tivemos três dias de folga, muito comemorada (a folga é claro) pela garotada.

  2. PEDRO TAKANORI SAKANE 10 junho, 2022 at 15:16 Responder

    Tinha um livro chamado “Admissão ao Ginásio”. Eu andava 5km para ir ao Educandário da cidade, onde uma freira ( irmã Geralda) ministrava aulas para nós. Ia de manhã para o Grupo Escolar de Campos do Jordão ( andando), voltava, almoçava, e ia de novo para o “cursinho”, para poder entrar no fabuloso Colégio Estadual e Escola Normal de Campos do Jordão

  3. Carlos R Martins 10 junho, 2022 at 15:59 Responder

    Fiz o primário em Moema, no Colégio Nossa Senhora Aparecida. Minha professora inesquecivel foi a de terceiro e também quarto ano, a dona Zeca, muito enérgica, brava quando necessária, mas ótima professora. No segundo semestre do quarto ano, estudei sozinho por um livro chamado Admissão ao Ginásio, e consegui passar no processo seletivo do Colégio Rio Branco. Com certeza, foi meu primeiro vestibular vencido!
    A partir do 3° ano ginasial, passei para o Colégio Santo Agostinho, onde permaneci até a conclusão do Cientifico. Junto com o terceiro cientifico, que era pela manhã, cursava a tarde o Brigadeiro, tudo isso me locomovendo por ônibus e bondes! Valeu a pena, passei direto na Santa Casa e na FMUSP, não chegando a prestar na Paulista pois já tinha vaga garantida na S. Casa, e para não atrapalhar a preparação para a Fmusp. Tempos inesqueciveis!

  4. Eduardo Berger 12 junho, 2022 at 08:14 Responder

    Éramos vizinhos nos tempos de ensino de primeiro grau – e por vivermos numa aldeia global, nos encontramos de novo no estudo da medicina! Encontros…

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