sexta-feira, fevereiro 23

ESTA ESCADARIA!!! Roberto Anania de Paula

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Em 1962, como interno do Arquidiocesano e cursando o segundo científico, fui convidado por um estudante da 51ª , morador de Jaboticabal SP, e subi esta escadaria pela primeira vez na vida. O sonho de subi-la outras vezes, penso, começou aí.

Em 1963, já morando na pensão da Dª. Wanda na Alameda Santos, no bairro do Paraíso, iniciei o Cursinho 9 de Julho onde conheci o Mário Egashira. À noite cursava o Instituto de Educação Prof. Macedo Soares na Barra Funda, onde algumas vezes fiz provas às sextas-feiras à noite para o Joel Faintuch. Na pensão, morava o Vicente Antonio de Araújo, também de Barretos, que já estava no 4º vestibular, e eu me preparando para o primeiro. O Vicente frequentava o Brigadeiro e fazia um estágio no Instituto de Moléstias Tropicais, com uma pesquisadora que além das pesquisas, dava um suporte ao vestibular. Naquele ano o CESCEM abrira 170 vagas (setenta a mais para a Faculdade de Ciências Médicas de Campinas, depois UNICAMP).

Em fevereiro de 1964 depois de ser aprovado na Santa Casa, Vicente e eu fomos informados pela pesquisadora que havíamos passado na USP e o resultado sairia naquela tarde. Com uma alegria contida fomos para a Faculdade. Chegando lá, já havia muitos vestibulandos na espera. Lembro-me de ter encontrado o Mário Egashira e combinamos pular o muro do cemitério se passássemos. Confesso, que não estava muito confiante na informação… Depois de um tempo, apareceu no alto, no meio da escada, um senhor de aparência austera com uma lista na mão, e começou após suspense a declinar os nomes e as colocações dos aprovados: -“Primeiro lugar, Lauro Bedin Junior”… A seguir os nomes iam se sucedendo e a expectativa aumentado. =”Octagésimo sexto lugar, Vicente Antonio de Araujo.” Será? Só faltam 14…  -“Centésimo lugar – disse o senhor – o último colocado”! Me dirigi para o pé da escada. Akeho? Ë isto ? O mundo desabou! Tomei o caminho da porta. -“Esperem, esperem – disse ele – neste ano houve um empate técnico. Entrou mais um”! Virei-me no momento que era anunciado o Domingos Lalaina Jr. Mal ouvi a sequência: … “102, Roberto Anania de Paula, primeiro de Campinas”…

Em 1964, cursei o primeiro ano na Escola Paulista de Medicina e, além de cumprir todos conteúdos programático, me destaquei nos esportes: futebol de campo. tênis de campo e atletismo (arremesso de dardo). Fiz muitos amigos nas competições esportivas, sobretudo durante a 1ª Pauli-Med que vencemos.

No início de 1965 fui convencido pelo colega Roberto Catani da EPM a prestar exame de transferência para a FMUSP. Com novas regras do Ministério da Educação as vagas remanescentes no ano letivo poderiam ser preenchidas por concurso público. E assim fui o primeiro transferido oficialmente para a FMUSP. Havia 3 vagas e 29 candidatos se apresentaram. Fizemos exame teórico e prático das matérias do 1º ano. Os exames foram realizados no andar térreo. Tinha subido a escadaria no ato da inscrição.

Um candidato foi aprovado. Novamente Dr. Dante foi o protagonista. Procurado na secretaria do 2º andar, disse: -“Passou somente um, chamado Roberto”. Eu e Catani nos entreolhamos e um perguntou? -“Anania ou Catani”. “Quem é o Anania” – disse ele”?. E assim fui aprovado.

Novo drama começou, ameaçado de expulsão do Centro Acadêmico e Associação Atlética procurei a secretária da EPM, Senhora Ida Paulina (funcionária há 34 anos, desde a fundação da escola). -“Moço” – disse ela – “nas escolas federais se permite transferências até 31 de março e hoje é dia 3 de abril de 1965”. -“Senhora” – disse eu – “se não for transferido serei expulso do C.A. e da A.A. Pereira Barreto. Terei que sair e procurar trabalho. Preciso de ajuda.” -“Então volte amanhã menino. O Dr. José Maria de Freitas diretor da Escola, assina tudo que coloco na mesa. Vou colocar sua transferência com data atrasada”.

E assim subi a escada para entregar a mesma na secretaria e no dia seguinte para assistir aula de microbiologia. Fui apresentado pelo saudoso Lourival de Campos Novo, presidente da classe e recepcionado por todos com muito carinho e palmas. Em seguida à aula, se não estou enganado, o Egidio me apresentou na Atlética e Centro Acadêmico para os devidos registros e carteirinhas.

Na semana seguinte procurei novamente Dr. Dante, para saber se estava tudo certo e ele disse que sim, mas que precisava ser aprovado na reunião do Conselho Universitário da USP a ser realizado em junho. Por ser o primeiro transferido oficialmente ele não via problemas, mas somente depois da aprovação estaria tudo certo. Mais dois meses de apreensão e, a seguir, 52ª até a morte. Uma pequena ressalva doída, o Vicente Antonio de Araújo, não me ajudou em nada. Não me repassou nenhum apontamento de nenhuma matéria. Entendi que pelo fato de sermos da mesma cidade, ele perdera a exclusividade. Brigamos e, apesar de morarmos juntos no mesmo quarto de pensão, passamos quase 5 anos sem conversar. Antes da formatura ele me procurou. Pude perdoá-lo e continuamos a amizade até sua morte prematura.

Mas este lance inicial desta escadaria, escondia outra escada. Aquela que descia. Esta sim, escura, sem o brilho dos degraus de mármore, mas tão emblemática quanto! Separava o viver e o dever. O Centro Acadêmico, nossos armários, o departamento feminino, a barbearia, o departamento de publicações, os velhos elevadores, a passagem para o HC, os quadros de aviso e fotos junto a entrada dos elevadores, aquela mesa sobre um tablado (onde o Mammana registrava em rolo enfumaçado a batucada dos ritmos musicais), a biblioteca do CAOC, a sala de música, a sala da revista, a vendinha, os banheiros, o refeitório, o bar do seu Abel, a secretaria da AAOC e seus trofeus, a sala do sono, ah o bilhar, as livrarias, o “bate-coxas” do “esqueletos”, etc. Quantos sonhos, quantas
conversas, quantas poesias, quanta cumplicidade. Permita-me La Laina, reproduzir um texto magistral de sua autoria, dirigido ao Berger e a 52ª :

“Berger, digo que, sendo ratos do mesmo porão, pudemos aprender verdades sobre nós. Se dizem que ratos herdarão a Terra, isso é motivo de respeito. Sê-los é motivo de orgulho. Se os bancos acadêmicos poliam nosso conhecimento, o Porão o fazia com nossa alma. À luz, comíamos saber. No aconchego subterrâneo, roíamos a igualdade e a fraternidade. Haverá o que pague termos tido tais berços ou, talvez melhor dizendo, ninhos? Abraço de um rato irmão agradecido, saudoso e feliz.
Lalaina”

A partir do 4º ano, passamos a frequentar menos a escadaria, pois o HC nos chamava. Talvez muitos de nós, tiveram poucas oportunidades de galgá-la outras vezes. Felizmente pude fazê-lo em muitas oportunidades, outros muito mais e alguns ainda o fazem nos nossos dias.

Em 1984, convocado pelo Professor Fábio Goffi, fui contratado como assistente da Disciplina de Técnica Cirúrgica (fui professor de filhas de colegas) que fica no quarto andar e pude utilizá-la durante 12 anos. Na realidade mais a descia, pois na subida por vezes, usava o elevador. Momentos especiais marcaram estes tempos. Minha defesa de Tese de Doutoramento (única vez que minha Mãe esteve na faculdade) no anfiteatro da Farmacologia, a frequência por dois mandatos da Egrégia Congregação como representante dos Professores Assistentes e Doutores, as inúmeras vezes em que fui da banca examinadora de teses de doutorado e concursos para assistentes da Faculdade, assistência à provas de arguição de candidatos a Professor Titular, etc, etc. Sempre fazia com admiração, orgulho e com lembrança da primeira vez. Sempre também um pensamento me ocorria: “Este caipira de Barretos já foi longe demais”.

A última vez que a subi foi junto com a Léa, o Berger, o Cury, o Paulo Szeles e o saudoso Lamardo, para visitar o Museu, durante um Encontro de Gerações.
Ansioso, aguardo subi-la novamente no nosso “Jubileu de Ouro” da formatura. Mais do que o privilégio de pertencer à 52ª Turma, agradeço a bondade de todos, naquela manhã de Abril de 1965, quando no anfiteatro da Microbiologia fui recebido com carinho e fraternidade. Se esta recepção carinhosa e de coração aberto não tivesse acontecido, seguramente o sonho juvenil desta escadaria e o sonho profissional médico não teria acontecido. Por esta razão, posso dizer com muito orgulho e propriedade:

“TODOS JUNTOS NA 52 a TURMA DA FMUSP”

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