sexta-feira, fevereiro 23

NO TEMPO DA VIDA TENRA, Domingos Lalaina Junior

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Passo a maior da infância em Itápolis.
Tenra e terna Itápolis.
Brincamos na rua e, se não estamos em casa, nossas mães sabem que estamos na casa de alguém. Lembro do Salto da Onça, pequena queda no Rio da Onça, no meio de um pequeno mato. Para nós, o Niagara.
E dos banhos de enxurrada, vermelha, dentro dos bueiros, mais felizes que porquinhos na lama. E das fugas dos chinelos.

Enquanto São Paulo tem dois milhões de almas, Itápolis tem duas mil.
Todos conhecem todos. Lá nos meus oito anos, chego a mandar uma carta a um primo. Sem saber o necessário, eu a endereço desta forma:
Belmiro Rondelli Jr.
Dona Bibi.
Itápolis.
Papai permite, sabendo que lá, a correspondência pode chegar assim mesmo.
Meu primo a recebe.

Lembro dos homens agachados, na esquina.
– “Mas, então, o boi tá bão?”
– “Tá, gordo.”
– “Quantos boi cê tem?”
– “Tantos…”
– “E quanto tá pedindo?”
– “Tanto…”
Pausa, para a conta de cabeça.
– “É meu.”
– “Pó mandá buscá.”
O negócio está feito. Os boiadeiros buscam o gado e alguns dias depois, o pagamento é feito, em dinheiro.
Sem papel nem assinatura.

Os números das linhas telefônicas têm dois dígitos, alguns têm três. Não há DDD, ligação automática à distância. O serviço utiliza operadoras, que chamamos “telefonistas”, exclusivamente mulheres, como ocorre com certas profissões, secretárias, enfermeiras, professoras do ensino primário, e outras.
São Paulo conta com serviço automático. Mas, as ligações interurbanas são solicitadas à telefonista e feitas por conexões de cidade em cidade. A depender do congestionamento a chamada para Itápolis pode levar doze horas. Ao se atender, no destino, ouve-se a telefonista anunciando a chamada. A seguir “passa” a linha.
Mamãe, na chamada anterior, entre os assuntos todos, comenta com tia Bibi o fato de Papai ter estado adoentado.

Passado o mês, naquele dia, à hora do jantar, uma nova ligação.  A telefonista anuncia:
– “Chamada para Itápolis, completa.”
Mamãe ouve o contato das duas telefonistas e, a seguir, Dona Cleonice, de Itápolis.
– “Dona Santinha, sua chamada para Dona Bibi, certo?”
Minha mãe confirma. Antes de passar a linha, a pergunta:
– “E Seu Domingos, melhorou?”

Que saudade…

9 comments

  1. Eduardo Verani 5 dezembro, 2022 at 01:04 Responder

    Lalá , isso me lembra São Roque , bem mais perto de São Paulo , mas com características semelhantes de comportamentos . Estou devendo ao Xará Berger duas histórias da minha terra . Mandá-las-ei logo .

  2. Takanori 7 dezembro, 2022 at 22:36 Responder

    Campos do Jordão, anos 50, era assim também. Telefone, só através das telefonistas. Nos não tínhamos telefone. Íamos até o sanatório onde meu pai trabalhava para ligar ou atender.
    Conhecíamos todos os donos dos poucos carros que existiam lá e, também, não sabia que ruas tinham nome: Era rua do fulano ou da loja X.

  3. José Nery Praxedes 24 dezembro, 2022 at 16:47 Responder

    Itápolis também é a terra dos gêmeos José Luiz Monteiro e Carlos Paschoal Monteiro, formados em Botucatu, que fizeram Internato e Residência com a nossa turma.

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