quarta-feira, fevereiro 28

“MOTOQUEIROS ANTI-DROGAS”, por Decio R Kerr de Oliveira

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Em 1983, meu irmão Eduardo e eu programamos uma viagem para a Venezuela. Ele iria com sua Yamaha DT 180 e eu com a minha Honda XL 250 R. Iríamos até Caracas e, de lá, despacharíamos as motos para o Brasil, não tínhamos tempo para voltar rodando. Nossos planos mudaram ao chegar em Manaus. Caminhoneiros que conheciam a estrada para a Venezuela nos disseram que a viagem era tranquila, mas teríamos que enfrentar dois grandes problemas: o primeiro, um trecho de 600 km sem postos de abastecimento e o outro, mais sério, era que a estrada cruzava uma reserva indígena e tinha a passagem proibida das 18 às 6 h. Quem chegasse à região neste horário era obrigado a dormir no mato próximo à cancela.

Mudamos o roteiro, embarcamos com as motos em Manaus no Augusto Montenegro, e depois de quatro dias de uma belíssima navegada rio abaixo pelo Amazonas, chegamos a Belém, para iniciarmos a volta pela Belém-Brasília.Na época a estrada de Cuiabá (MT) a Porto Velho (RO) tinha 1.650 km, dos quais 1.550 de terra, que percorremos em 6 dias.

No segundo dia desta difícil etapa da viagem, saímos bem cedo de Tangará da Serra, MT, para tentar dormir em Vilhena, já no Estado de Rondônia. A pilotagem pela Chapada dos Parecis é muito difícil. As estradas, intransitáveis na época das chuvas, viram um areão na seca. O traçado original fica impraticável e os caminhoneiros vão fazendo novos caminhos pelo cerrado. Estes novos caminhos têm sua vegetação rasteira destruída depois da passagem de poucos veículos, transformando a nova trilha em areia pura. A região torna-se um verdadeiro novelo de trilhas, que tem como linha central o traçado original da estrada. Vista pelo satélite parece uma gigantesca anastomose artério-venosa.

Com a luz do sol a pilotagem pelo cerrado não é tão difícil. Dá para acompanhar à pequena distancia as marcas dos caminhões. À noite a história é outra, com a fraca iluminação dos faróis das nossas motos, sem querer a gente cai nos caminhos mais batidos, mais visíveis, onde a pilotagem é exaustiva por causa da areia solta. E foi o que aconteceu. A escuridão nos pegou em plena Chapada dos Parecis, e quando já começávamos ficar preocupados, vimos uma luzinha no horizonte. Fomos caminhando, lado a lado, em direção à luz, cruzando aos solavancos, as inúmeras trilhas do caminho. Para nossa grata surpresa, era a luz de um lampião que iluminava o acampamento de um grupo de caminhoneiros que traziam madeira de Porto Velho para o Sul do País. Mais uma vez, o anjo da guarda dos motociclistas de longa distancia mostrou sua força. Ao verem os dois faróis os motoristas pensaram tratar-se de um jeep que vinha da escuridão em sua direção e quase não acreditaram ao constatar que eram duas motos.

Estavam preparando o jantar, pelo aroma um frango ao molho pardo, e depois das apresentações e devidas explicações do que estávamos fazendo ali naquela hora, nos convidaram para sentarmos à “mesa” e, se necessário, dormirmos na boleia dos caminhões. Agradecemos ao convite, mas ao saber que poucos quilômetros a frente existia um posto de gasolina com cabanas para pernoite, resolvemos tentar prosseguir. Por via das dúvidas, falei que voltaríamos se não conseguíssemos alcançar o posto. Foi o que aconteceu. Depois de algumas centenas de metros andando naquela areia fofa, com a DT já “batendo saia”, sinal típico de super-aquecimento daqueles pequenos motores de dois tempos, resolvemos voltar antes que ele travasse naquela escuridão.

Ao chegarmos, o jantar já estava servido, pegaram mais dois pratos e nos serviram daquele frango ao molho pardo que estava uma delícia. Teria sido a fome? Dividimos a “mesa” com uma jovem, carona de um caminhão que tinha quebrado uma cruzeta e o motorista tinha ido a Cuiabá comprar a peça.  Ela tomava conta do caminhão, naquela solidão do cerrado, há vários dias. A moça ficou muito alegre com a chegada dos dois motociclistas à noite e naquela região muito próxima a fronteira com a Bolívia. Ela se divertiu rindo a solta com nossas histórias. Meu irmão até começou achar que aquela alegria toda era pela simpatia dos motoqueiros paulistas, modéstia à parte. Ledo engano. Notei que ela ficou calada e visivelmente abatida, quando a conversa enveredou para o campo das drogas, quando comentei que tendo aprendido nas aulas de toxicologia da faculdade sobre os malefícios à saúde, e na prática diária no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas constatando os estragos que elas causavam, eu era visceralmente contra o uso delas. Muito abatida ela levantou, disse que estava com sono, e mesmo antes do término da janta, se retirou em silencio para o seu caminhão e não apareceu mais. Mesmo no dia seguinte, pouco depois do nascer do sol, quando tomamos uma deliciosa caneca de café pra prosseguir viagem, não vimos mais a bela jovem. Senti pena da menina. Ela deve ter ficado esperançosa com a chegada totalmente inesperada dos dois “motoqueiros” que viajavam por esta região quase desértica, vizinha da Bolívia e deve ter imaginado o que podíamos estar trazendo nas mochilas. Sua decepção deve ter sido enorme com o meu discurso veemente antidrogas.

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