sexta-feira, fevereiro 23

“Salvando um Coração Partido ou “A Bela Carioca” por Flavio Soares de Camargo

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Como se trata de um dos membros mais afetivos da turma, o nome pouco importa…

Durante o 5º ano, me abordou perguntando se eu iria passar o carnaval na fazenda da família, em Mococa. O carnaval em Mococa ainda era a moda antiga, com bons bailes familiares e a curtição era saudável e muito divertida. Fiz o convite de pronto e comecei dando as coordenadas básicas, como chegar, horário, o que levar, etc. Foi quando me informou que estava apaixonado por uma moça carioca que iria passar o carnaval em Poços de Caldas, numa república de uma amiga, e como Mococa ficava perto, ficaria mais fácil para eles se encontrarem, pois todos os hotéis estavam lotados.

Epa! Era evidente que o colega não sabia onde estava se metendo… Poços de Caldas tinha tido seu auge na época dos cassinos, décadas de ’20 e ’30, e o Palace Hotel tinha sido o centro turístico da jogatina da região, finíssimo, com piscina interna aquecida, termas sulfurosas e uma mordomia de nível europeu, da mais alta qualidade. A frequência era de milionários rurais, e com tudo o que acompanhava este tipo de presença. O hotel ficava no meio de uma grande praça ajardinada e de muito bom gosto, porém a jogatina tinha acabado há bons 30 anos, o declínio da cidade tinha sido intenso e o turismo do jogo havia sido substituído por território de livre comportamento (gosto de usar, às vezes, palavras derivativa…s): os milionários se foram, mas as acompanhantes não.

Meu pai, sabendo da decisão do colega, me alertou que eu deveria ir com ele, pois boa coisa não iria acontecer, ele era totalmente “naive” nos assuntos da vida humana. Era excelente aluno em conhecimentos do corpo humano, mas não do comportamento humano.

Haveria uma chance, se o baile fosse no Palace Hotel, aí seria de terno ou smoking, era assim ali naquela época e o que daria um mínimo de exigência comportamental aos frequentadores… Mas não! Seria no CLUBE DO AÇUDE, um “bas fond “ extremamente perigoso, mas como sou abstêmio e o colega também (quase que vocês matam a charada), daria para sair antes de algum tumulto.

Conversei com nosso amigo tentando dissuadi-lo da perigosa empreitada, mas em vão, estava perdidamente apaixonado. Ele iria de qualquer maneira. A estrada entre Mococa e Poços de Caldas era de meros 30 km, mas dentro de fazendas, ou então teria que dar uma baita volta de 150 km, de noite, em estradas de terra. Ele não conseguiria ir sozinho. Fomos juntos… prédio com elevador, boa vizinhança, bem recebidos, e a dama escolhida apareceu para receber nosso querido colega com as devidas honras.

Linda morena, de longos cabelos lisos escuros soltos, belo sorriso, alta, sotaque da zona sul do Rio de Janeiro o que dava um toque especial a bela mulher que era. Eu me achei o maior tonto da paroquia, tentar ser babá de dois adultos, caramba, que furada!! Mas estavam juntas amigas, e fui fazer par para uma delas. Eu já estava com saudades da minha querida Mococa…

Hora do baile, lá fomos nós para o Clube do Açude, afastado da cidade; tivemos que passar na frente do Palace Hotel e vimos os pares entrando, homens de smoking e mulheres de longo, rigor completo! Nós, calça e camisa social, e a dama do Rio com uma micro saia mostrando lindíssimas pernas queimadas de sol carioca, uma blusa branca transparente, decotada, mostrando um colo deslumbrante. Ela se destacava das amigas de longe! Meu pensamento foi um só: nosso herói está mortinho, sem salvação, mas cruzei os dedos dos pés e das mãos torcendo por ele.

Entramos no salão e todas as cabeças masculinas giraram em nossa direção – foi aí que meu sistema de alerta acordou, aquela frequência não era para nós dois, estávamos entrando numa fria perigosíssima, com a mais bela mulher que qualquer um daqueles tigres tinham visto na vida, vestida para matar!! Verdadeiros animais humanos da pior espécie e nós dois, já que nossas companheiras estavam se deliciando com o que estava acontecendo, eram o centro da atenção do salão todo. Nosso colega só conseguia enxergar a namorada, e ela conseguia enxergar o salão todo, avisei-o do perigo que estávamos correndo naquele ambiente, fôssemos para um restaurante, sei-la o que eu argumentei, mas elas já haviam pedido bebidas, vermute, vaca preta, vodka, gin, etc etc. A bela carioca foi ficando “maneira”. o belo sorriso mais aberto, o cabelo voando nas mexidas de cabeça, aquela blusa já não cobria mais nada. Avisei-o para sair para dançar para ver se o fogo da dama abaixava, e foi muito pior, pois uma bela carioca num salão com a atenção de todo mundo em cima dela foi fogo e pólvora juntos.

O salão simplesmente explodiu, todo mundo batendo palmas, aquele corpo espetacular brilhando de suor, aquelas pernas espetaculares fazendo rodopios de arrepiar, a blusa molhada já totalmente colada naquele colo fantástico e, vocês sabem muito bem, que somos bons no livro, mas aquela situação era para um RUDOLF NUREYEV, e não para o nosso querido colega.

Eu estava na nossa mesa com minha garrafa de CRUSH (vocês lembram?) quando ele veio sozinho de ombros caídos. Eu olhei procurando-a, e a vejo dançando no meio de um grupo de homens completamente solta. Vários deles já sem camisa, ela conseguiu enlouquecer o salão sozinha!!

Dividimos a garrafa de Crush, paguei a conta e voltamos para Mococa.

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