sexta-feira, fevereiro 23

Primórdios da respiração assistida, Eduardo Berger

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E certas “caixinhas verdes” foram concebidas por notável engenheiro bio-medico de Massachussets!

Antes de criar o Bird Mark 7, Forrest Bird fora piloto na II Guerra Mundial e sua experiência levou-o a desenvolver um equipamento que facilitava a respiração dos aeronautas durante vôos em grande altitude. Daí, à aplicação em pacientes com insuficiência respiratória, foi um passo gigantesco na evolução da prática médica – e muitas vidas foram salvas…

Quando as primeiras tais “caixinhas” chegaram ao HC (’69?), sua instalação e regulagem eram algo como um ritual, revestido de pompa, um procedimentos de “grande complexidade”. Era como se o arauto do reino batesse no chão seu bastão e anunciasse, solenemente: “VAI- SE INSTALAR UM BIRD”! E ninguém sabia bem como fazê-lo… Então, chamava-se o Dr Euclydes Marques, o único capacitado para tal!

Quis o destino, sempre ele e sua ironia… que ele mesmo, vítima de um acidente automobilístico, desse entrada no nosso amado PSC, anos depois! Trauma torácico, diversos arcos costais fraturados, respiração paradoxal. Suas primeiras palavras, a voz fraca e rouca: “Não me façam traqueostomia”!! Um amigo ferido, um momento de apreensão e medo, mas foram inevitáveis os sorrisos da equipe que o assistia… Foi um dos muitos momentos tragicômicos propiciados pela nossa escalada profissional.

Durante sua internação, Euclydes, com uma máscara ou uma chupeta, ele próprio, utilizando o velho Bird Mark 7, teimava em operar a regulagem para si mesmo! Realidade e fantasia, por vezes, mesclam-se em nossas mentes e podem confundir um pouco o relato… porém, está muito claro em minha memória quando eu, residente de cirurgia, a beira de seu leito na 4030, observando os parâmetros de fluxo e pressão da “caixinha”, pedi desculpas: “Perdão, mestre, mas não está totalmente bom… me permita mexer nos controles”? Que ousadia, não? Pois bem, modéstia a parte – foi com ele que eu aprendi!! – e com sua permissão fiz pequenas mudanças, com o que a dinâmica ventilatória melhorou muito, estabilizando aqueles pobre arcos costais anteriores instáveis.

O Euclydes era, e é até hoje, um dos meus ídolos, um dos meus “espelhos” na profissão. Com ele aprendi, entre muitas coisas, a trabalhar com as “caixinhas verdes” e com o método de fazer a regulagem em si mesmo – um excelente treinamento! Nas horas vagas, inclusive muitos anos depois, na medicina privada, eu “me ventilava” com o Bird, usando a chupeta. Colocava um espirômetro na válvula expiratória e obtinha incríveis incrementos no volume corrente. Claro que isto foi muito útil nos anos 70 e 80 do século passado… Com o passar do tempo chegaram novos aparelhos, ciclando “a volume”, respiradores micro-processados,  cada vez com mais recursos, fazendo esse meu relato coisa de museu!

Mas do passado também se vive..

Salve a FMUSP e salve o HC (que “já foi da FMUSP”…)!

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