terça-feira, junho 25

A Visita ao Asilo de Leprosos Santo Ângelo e o Professor Carlos da Silva Lacaz, por Joel Faintuch

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A CURA DOS DEZ LEPROSOS

Pintor  francês James Jacques Joseph Tissot – Realismo, século XIX

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Alguns possivelmente não participaram da breve visita àquela Instituição…

Gerhard Hansen 1841-1912, norueguês – — identificou o “M. leprae” em 1873.

Pelo que me recordo, foi em pleno curso de Microbiologia (1965). Fomos conduzidos ao “Santo Ângelo”, um asilo de leprosos nas imediações de Mogi das Cruzes.

A lei da internação compulsória dos portadores de hanseníase (hoje é proibido referir-se como leproso) havia caducado pouco antes, em 1962. E os asilados praticamente todos já estavam livres da forma ativa, bacilífera. Exibiam sequelas por perda parcial ou total de dedos, deformidades de mãos e  rosto, ou incapacidades por neuropatias e artropatias. Já poderiam retornar a seus lares, e alguns o fizeram. Porém a maioria optou por permanecer porque os parentes não os queriam, ou nem foram localizados.

Ademais, o asilo construído pelo governo estadual era bonito, confortável e diversificado, se nos abstrairmos do isolamento e da rejeição social, familiar e psicológica, integrantes do terrível estigma associado á hanseníase.

A mini-cidade contava com padaria, oficinas, igreja, cine-teatro e quadra de futebol. Tudo operado e utilizado pelos próprios pacientes. Havia edificações de figuras famosas como Ramos de Azevedo, responsável pelo Teatro Municipal de São Paulo, e do arquiteto judeu ítalo-brasileiro Rino Levi, autor do Hospital Albert Einstein. Hoje o vilarejo encontra-se tombado pelo Patrimônio Histórico, e serve de centro de reabilitação para dependentes de drogas.

Nada a ver com os acampamentos de leprosos, como o descrito pelo profeta Eliseu (Reis II, capítulo 7), nos arredores de certas cidades da Israel bíblica, onde se morria de fome, não da micobacteriose. Ou com os enfermos da Idade Média européia, que vagavam sem rumo e sem hospitalidade de cidade em cidade, expulsos pelos próprios familiares. Para recolher caridade e alimentos, carregavam longa vara com uma cestinha na extremidade. Desta forma as pessoas poderiam depositar algo sem se aproximar muito do desditado.

E o professor Carlos da Silva Lacaz? Não sabemos se foi ele que idealizou a visita, porém teria sido bastante característico. Ele albergava diversas paixões na vida. Cientificamente prendia-se à Micologia, e escreveu tratado sobre a matéria. Socialmente mantinha-se próximos dos estudantes, que encontravam a porta aberta do seu laboratório, quando buscavam uma cultura para as famigeradas “uretrites”.

      Não, a hanseníase não é  ocasionada por fungos, é  moléstia bacteriana mesmo

Adorava grandes vultos da medicina brasileira, e escreveu monografias a respeito. Como não eram bem aceitas pelo mercado e encalhavam, eles as sorteava ocasionalmente no final das aulas. Produziu outras obras  médicas, algumas ainda à venda.

Olhava com carinho os hispânicos, e ao longo das décadas recebeu mais de uma centena de estagiários da América Latina em seu departamento.

No entanto o que o arrebatava mesmo era a instituição, a própria Faculdade de Medicina. Já em 1959 fundou o Instituto de Medicina Tropical, que segue produtivo e conceituado até hoje.

Não foi dos idealizadores dos LIMs (Laboratórios de Investigação Médica), e era contrário à transferência das atividades didáticas para o campus da USP. Afirmava que isto “desmantelava” a FMUSP. Contudo acabou auxiliando na regulamentação destes laboratórios, alguns dos quais tornaram-se internacionalmente renomados.

Um dos seus duradouros legados foi o Museu da FMUSP,que criou quando diretor (1974- 1978) e consolidou nos quatro anos seguintes, como vice-diretor. Promoveu também o tombamento de todo o conjunto da FMUSP junto ao Patrimônio Histórico.

Mesmo aposentado em 1985 visitava periodicamente a faculdade, até seu falecimento aos 87 anos em 2002.

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