sexta-feira, fevereiro 23

“AQUELLOS OJOS VERDES”…, por Flavio Soares de Camargo

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Prólogo do Editor

O lindíssimo bolero de Utrera y Menéndez, a voz aveluda de um ídolo (“REI”) e os belos olhos da enfermeira Mariana (nome fictício), inspiraram a postagem deste mini-conto do romântico Menestrel do Vale do Paraíba! Ele o dedica às queridas meninas da 52ª!

Ouçam o clipe antes de ler o texto, para entrar no clima…

PERHAPS LOVE!

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Quando eu estava terminando a especialização Vascular no Hospital das Clínicas da FMUSP, éramos nós que atendíamos os pacientes do Hospital Militar da Força Aérea Brasileira, em Guarulhos. Era pequeno, com pouca estrutura tecnológica, bem limitado. Faltou um cirurgião vascular e eu, médico residente do terceiro ano, passei a atendê-los.

Gostaram de meu trabalho, e me deram uma carta de recomendação para o Hospital do CTA, onde existe o ITA – eu a utilizei quando vim para São José. Era um belo hospital militar! No primeiro dia em que me apresentei lá, um soldado me acolheu, dizendo que eu seria atendido pelo tenente responsável. Eu andei por um corredor e bati em uma porta com essas palavras escritas. Uma forte voz masculina respondeu, entre. Eu abri…

No escritório, um casal de oficiais da aeronáutica, elegantemente uniformizados. Ele, secamente me cumprimentou, e saiu. A jovem oficial estava lendo a carta de recomendação, e lentamente se virou para mim. Um enorme par de olhos verdes e brilhantes me fulminaram! Foi como um raio que atingiu minha intimidade! Fiquei imobilizado, sem palavras… e ela deu uma gostosa risada. -“Doutor” – ela disse – “acho que você perdeu a língua, vamos nos mexer, venha comigo, vou lhe mostrar a sala de cirurgia. Meu nome é Mariana, sou oficial-enfermeira, a tenente responsável!”

Bem, muitos anos se passaram, a vida continuou, trabalhamos juntos algumas vezes. Perdi o rastro dela…

Recentemente, sofri um pequeno acidente. Fui para a fazenda com minha filha dirigindo, e dormi pra caramba por três horas e meia. Quando chegamos, acordei sem conseguir mexer a perna esquerda. Estava parética e impotente, e para me movimentar tive que usar muletas. Fui ao ortopedista que pediu uma ressonância magnética e o diagnóstico foi uma pequena lesão de nervo periférico. Nada demais, apenas um mau posicionamento durante o sono; em alguns dias estaria curado. Indicou fisioterapia, analgésico e corticosteróide.

Eu usei meu cartão de seguro para fazer o tratamento. Foi feito em uma sala enorme, com várias macas, uma ao lado da outra. Os fisioterapeutas indo de um paciente para outro. Num dos dias, a sala estava cheia, 90% mulheres, de todas as idades. Eu estava em decúbito ventral e o terapeuta trabalhando em minhas costas. Na maca ao lado, uma idosa usando bengala, queixando de dor numa perna; ouvi ela pedir ao terapeuta uma indicação de cirurgião vascular. Ele sorriu e disse que eu era cirurgião vascular, e falou meu nome. Ato continuo, a senhora fez uma pergunta: – “Lembra de alguém, no hospital do CTA, de nome Mariana?” Eu não conseguia vê-la da minha posição, deitado. Nesse meio tempo toda a sala ficou em silêncio pela estranha situação que estava acontecendo, e sem pensar muito eu disse, alto e bom som:  -“Não me lembro do rosto dela, mas de seus olhos verdes, jamais esqueci”.

Apesar da dor, ela deu aquela sua mesma risada, e toda a sala começou a aplaudir. Fiquei um pouco assustado, embaraçado, e virei minha cabeça para o lado dela. Foi o suficiente para que eu visse aqueles olhos verdes, daquela velha mulher, inundados de lágrimas… E entre choro e riso, ela me disse: -“Você me fez muito feliz hoje!”

Ela era a Mariana!

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