quarta-feira, junho 19

EU NÃO ERA CARIOCA por BONNO VAN BELLEN

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Eu era recém-formado. Medico residente. Já trabalhava bastante. Mesmo antes de me formar era muito ativo na cirurgia vascular e nos transplantes de rim. Era assistente do Irany Novah Moraes. Ele tinha estagiado alguns meses na Northwestern University, com John Bergan. Lá fez amizade com Edson Teixeira, cirurgião -geral que fazia trabalho experimental de hipertensão portal e também transplante de pâncreas. Pouco depois que voltou ao Brasil, fez o primeiro transplante de pâncreas do mundo. No hospital Silvestre no Rio. Aos pés do Cristo Redentor. Ficou conhecido no mundo todo. Era perto de 1970. Por aí. Brasilia tinha acabado de ser inaugurada. O Distrito Federal no estado do Rio foi rebatizado de estado da Guanabara. Edson Teixeuira virou secretário de saúde do novo estado.

Organizou um congresso médico de monta. No hotel Glória. Ícone dos hotéis do Brasil. O aterro do Flamengo tinha acabado de ser realizado e também a ponte Rio-Niteroi. Fora isso, o alargamento de Copacabana. Antes era uma rua larga entre os prédios e a areia. Nada comparável com a larga avenida de hoje. Que fez esse aterro foi uma firma holandesa cujo dono era conhecido de meu tio.Conta ela que a determinado momento o governo parou de pagá-lo. A areia era bombeada de Botafogo para Copacabana através de enormes tubulações. O holandês não pensou duas vezes: começou a bombear de volta. Em poucos dias os atrasados estavam pagos e não houve mais problemas de contas!

Mas, voltando. Edson Teixeira tinha convidado todo o staff cirurgico da Northwestern. Era uma maneira de demonstrar sua gratidão pelo apoio que haviam lhe dado durante sua esrada, onde fez, inclusive, o mastership. Convidou, claro um bocado de cirurgiões cariocas e, de fora do Rio, o Irany, que me levou junto.

Muito emocionante. Chegamos ao Rio na sexta de manhã, debaixo de chuva. Estava chovendo há duas semanas. Os cariocas odeiam chuva. O que querem é sol e calor para poderem aproveitar a praia no final do dia ou mesmo na hora do almoço e, claro no final de semana.

Pois bem. Sábado, primeiro dia do congresso, a chuva tinha parado , o céu estava limpo e um sol exuberante espalhava sol e alegria sobre o Rio.

Já estavam no salão do congresso, o pessoal da organização, o Edson, Irany e eu. Aos poucos is convidados americanos iam chegando. Tidos estavam presentes pontualmente às 9, hora do inicio. Faltava a audiência. Os minutos foram passando e nenhum carioca se apresentou, dos 100 convidados.

O que teria acontecido? Porque não vinham?

O diagnóstico o próprio Edson deu: o sol tinha aparecido depois de 15 dias de chuva. Os cariocas estavam na praia.

Mas o programa foi cumprido. Os americanos falaram para meia dúzia de pessoas e chegou o intervalo para almoço. A sessão da tarde foi melhor. Havia uns 40.

Mas foi tudo muito constrangedor.

À noite houve um jantar no Iate Clube. É claro que o comparecimento ao jantar foi muito melhor. Estávamos, eu e o Irany, sentados à mesa com John Bergan, chefe da vascular, e sua mulher Elizabeth. Ele queria saber de tudo sobre minha formação e elogiou o exemplo que eu estava dando por ter sido o único a não ter cedido ao convite do sol, mar e areia. O vinho foi correndo e não demorou que ele entendesse minha pergunta: é possível eu passar um ano em seu Serviço?

Claro! Estava muito impressionado comigo e faria tudo para acertar minha ida a Chicago.

Como efetivamente fez.

Minha formação na especialidade se consolidou graças à chuva, o sol, a areia e o mar.

Eu não era carioca…

1 comment

  1. Joel Faintuch 17 novembro, 2019 at 22:57 Responder

    O Bonno tocou numa ferida importante. Em 1969, o American College of Surgeons ofereceu um curso de trauma inteiramente gratis para a filial brasileira. Foi no nosso internato. Compareceram as maiores autoridades americanas da época. O coordenador nacional do ACS era o Mário Ramos de Oliveira, que salvo falha de memória, agendou o auditório do Servidor Público Estadual (não sei porque preteriu a Faculdade). Mário Ramos não era exatamente um proficiente organizador de cursos. A divulgação foi pífia, e mesmo sem custos ninguém compareceu. Havia mais gente na mesa de abertura que na platéia. O desfecho não foi tão benigno como o descrito pelo Bonno. Muitos professores ministraram sua primeira aula, e anunciaram em tom de protesto que estavam a caminho do aeroporto, pois para eles bastava.

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