quarta-feira, fevereiro 28

Não fui seduzido pelo “Mundo de Marlboro” por Antonio A. Macedo Costa

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A respeito dessas fotos com artistas fumando, tenho algo a contar:

Minha mãe faleceu de fogo selvagem quando eu tinha 8 anos (não havia ainda corticóides).

Aos 10 fui morar com meu pai, professor de ginásio, em Uberlândia, para que eu fizesse o curso. A biblioteca do meu pai era imensa, mas de livros clássicos. Ele comprava muitos livros e revistas, isso em 1941. Eu lia de tudo e muitas vezes ele dizia: “-Menino, esse livro não é para você”. Lembro-me de que li, por exemplo, “Nossa Vida Sexual”, de Fritz Kahn, livro famoso na época.

Meu pai fumava demais (morreu de câncer de esôfago) – há uma história a contar sobre isso, mas é longa, fica pra outra oportunidade – e comprava cigarros em pacotes de 100. Os amiguinhos de minha idade pediam: “-Roube uns cigarros dele; ele nem vai notar. E vamos fumar”. E eu fumava com os amigos…

Mas, um dia, procurando o que ler, dei com um livro intitulado Trigonometria; pensei comigo: que coisa bacana! Algum dia vou estudar isso. Fora os cursos básicos fiz dois cursos de cálculo , um com um professor do ITA. Mas, continuando a procura, encontrei uma revista traduzida do inglês. Li-a. No final havia um artigo, de um médico americano, contra o cigarro (sem os argumentos de hoje, é claro). E ele dizia: “-Ainda que o cigarro não faça mal à saúde, ele faz mal ao bolso e é causa de incêndios porque o fumante acaba jogando fora o toco aceso”.

Caramba, eu pensei: esse sujeito está certo! Vou parar antes que fique viciado. Nunca mais fumei. Hoje, com 91 (NOVENTA E UM!) anos, minha Saturação de O2 está em 97 ou 98. Se eu der algumas poucas respirações profundas ela vai a 100.

Notável! Um médico americano influenciou um brasileirinho de 10 anos a não fumar!!! Nas minhas preces agradeço até hoje àquele médico, a meu pai que comprou a revista, e (para quem acredita), a algum “sopro” no ouvido: menino, venha ler alguma coisa que presta.

NOTA DO EDITOR:

Tem noventa e um! Não pretendeu ser mais um “Homem de Marlboro”…

E SE ELE TIVESSE FEITO DIFERENTE??

4 comments

  1. Decio Kerr Oliveira 27 junho, 2022 at 14:13 Responder

    Na minha infância, na Chácara do Aeroporto, a molecada fumava talos secos de chuchu e depois disso nunca mais coloquei um cigarro na boca. Com certeza muitos dos meus amiguinhos continuaram no hábito. Teria sido pelo exemplo do meu pai e da minha mãe que nunca fumaram ou algum “sopro” no ouvido do meu Anjo da Guarda (que eu acredito).
    Quando fui pro Colégio Interno em Rio Claro pra completar o Ginásio (coisa que sempre agradeci pro meu pai) levei meu “Nossa Vida Sexual” que ele tinha dado e acabei ficando querido pela garotada que toda hora pedia pra ler o famoso livro do Fritz Kahn.
    Macedo, ainda bem que você sentiu o “sopro” no ouvido e leu alguma coisa que realmente lhe prestou, parabéns.

  2. EDUARDO BERGER 28 junho, 2022 at 12:02 Responder

    O “charme” de um cigarro na boca, ou entre os dedos, a mística dos desenhos que a fumaça provocava, iluminada aos refletores, assim era… Hollywood explorava a mística dos adoradores da “sétima arte”. Modismo? Atração pelo “belo e proibido”? O fato é que, praticamente, todos nós enveredamos pelo caminho para o qualL éramos chamados… “VENHA PARA O MUNDO DE MARLBORO”!

  3. Takanori Sakane 29 junho, 2022 at 07:35 Responder

    Quem, na infância, não foi atraído pelo charme de um cigarro? Ainda mais com os atores e atrizes, entes de outro mundo, fascinando a nossa mente?
    Quando criança, meus avôs fumavam, e eu e o meu irmão furtávamos uns cigarros e íamos fumar escondidos no mato ( nossa casa era no meio do mato). Não achava graça nenhuma, mas era o prazer de correr risco. Depois nunca mais fumei
    Não sei se os meus colegas pediatras se lembram do dr Fiore, que era chefe do ambulatório de Pediatria naquela época. Fumava mais do que chaminé, juntamente com o dr Pilleggi e dr Samuel Schvartzman. Quando ele chegou aos 70 e poucos anos, eu falava: Fiore, pare de fumar. Vai ter cancer de pulmão e ele retrucava: Takanori, é o único prazer que me resta. Sei que vou morrer de cancer de pulmão e, realmente ele o adquiriu, recusou-se a tratar, não foi para UTI, fumou até o fim e morreu feliz. É por isso que não largo do meus vinhos e do whiskinho. Se morrer de cirrose /cancer de fígado, não posso reclamar.

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