quarta-feira, junho 19

Nem todos voltaram, Flávio Soares de Camargo

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Penso que todos os colegas sabem de minha paixão pelo mar.

Todas as vezes que saio para alto mar são experiências diferentes mesmo que o passeio seja o mesmo. Desta vez foi mais diferente que o usual .

Final de semana, com promessa pesquisada no site do litoral de Ilhabela Wind Guru, seria espetacular, apenas um sudoeste (de apelido SUDOCO) vindo do sul ainda em Santa Catarina. Media intensidade, e chegaria no domingo a noite.

Telefonei para a marina Lemar, no Pontal da Cruz, em São Sebastião, e pedi que deixassem minha fiel Carbrasmar 26 pés pronta e abastecida. Tendo maré, que colocassem o barco na poita. Sairia bem cedo no dia seguinte. Programa, ir a Ubatuba pegar um colega da Marcia, um austríaco, Klaus Greiner, atualmente viúvo e amante do mar, alem disto grande amigo. Iriamos pernoitar na Ilha do Prumirim, uma visita a ilha das Couves e, se desse vontade, uma chegada em Paraty. Voltaríamos no domingo a tarde ou segunda de manhã.

A lancha Carbrasmar 26 é um barco confortável, com um bom camarote, banheiro com chuveiro, ducha íntima, vaso sanitário elétrico, enfim o necessário. E na popa do barco, um belo toldo que permite se proteger do sol e da chuva é excelente para dormir pois é bem fresco.

Tenho uma rotina gostosa antes de sair para o mar: conversar com o velho Magrão, perguntar sobre o tempo, ele olha para o céu, coça os cabelos ausentes pois é careca e dá sua opinião .

Desta vez, sábado e domingo maravilhosos com uma virada suave de tempo no final da tarde, mas sem maior susto, poderíamos pernoitar duas noites no mar. Minha rotina é preparar cuidadosamente a parte alimentar, pois um dos grandes prazeres depois de navegar é comer bem, ou vice versa.

Sol da manhã, minha fiel parceira Marcia já no colo do Arlindo, um mulato gigantesco, pois ela está com o Alzheimer bem avançado e não consegue mais subir na plataforma de popa para entrar no barco: uma vez dentro ela se vira bem.

 

 

 

 

 

 

 

 

Neste dia iriam sair dois barcos: eu na Carbrasmar 26, a “Norway”, e o catamarã “Twin Green”, com o Jorge e a esposa: eu, um destino provável e ele, um certo, pois ele tem casa em Ilha Bela e usa o barco para cruzar o canal e não depender da balsa.

Navegar numa Carbrasmar é o sonho de qualquer marinheiro, barco lento, mas enfrenta qualquer mar, pois navega macio sob qualquer circunstancia; desenho bastante antigo, esta é de 1979 e teve a sorte de ter tido três excelentes donos, sendo eu o 3º; um motor moderno, um potente VOLVO  diesel com 200 HP com rabeta, colocada recentemente. O ronco dele é musica para os meus ouvidos!

A ida para Ubatuba em uma hora e meia foi uma delicia, mar espelhado, sol resplandecente, o ronco do Volvo e o vento no rosto,  deleite puro! Pelo celular já avisei o Klaus para esquentar a churrasqueira, pois o almoço seria na casa dele, no Perequê Mirim, no Saco da Ribeira.

Ele me dá uma mão danada com a Márcia, pois preciso de duas pessoas para por e tirá-la do barco. Âncora descida, lá veio ele nadando… tem 75 anos mas forte como um touro. Desci o bote de apoio, a colocamos dentro e fomos remando para a praia.

Churrasco espetacular, e fomos para nosso destino que ficava a trinta km dali, a Ilha do Prumurim, um pedaço do paraíso aqui na terra.  Chegamos a noitinha, uma aproximação lenta e cuidadosa pois tem muita pedra por ali. Âncora n’água, fomos nadar já com a lua nascendo e a Marcia ficou no barco. O jantar cuidadosamente preparado, sanduíches veganos para não pesar a noite, e entramos no anoitecer tocando gaita. Noite tranquila, mar manso, um discreto chacoalhar que não dá para ficar acordado.

O anoitecer e o amanhecer no mar é feito de pura poesia, ver os pássaros entrando na mata a noite e saindo dela pela madrugada é um espetáculo a parte. O nascer do sol … enfim, difícil de por num papel…

Café da manhã tomado, lá fomos nós explorar a região. Ilha dos Porcos e Ilha das Couves, uma perto da outra e esta, de uma beleza a parte. O mar de cor esmeralda e totalmente transparente. Mergulhamos com snorkel para ver a fauna marinha que é muito rica ali . Um espetáculo! O dia quente, agradável, mar manso, temperatura ideal. Eram 9h30 da manhã quando voltamos a bordo para um pequeno lanche e programar o resto do dia. Paraty? Ilha Grande? Sem destino fixo.

Tenho sempre o cuidado de ter um bom rádio e antena possantes nos meus barcos, e sempre os deixo ligados. Estávamos numa gostosa conversa quando algo me arrepiou o corpo inteiro: a rádio DELTA 24 do Iate Clube de Ilhabela notificando emergência de temporal. A frente fria que estava em Santa Catarina estava mudando o comportamento e pegando alta velocidade.

Abri meu celular e lá estava o alerta da MARINHA DO BRASIL informando o perigo iminente. Telefonei para o Magrão e ele me avisou: -“TÁ ESQUISITO DOUTOR, NÃO ESTOU ENTENDENDO O QUE ESTA ACONTECENDO, VOLTE LOGO”. Bem, voltar logo a 80 km de distância fica meio estranho. Opções de abrigo na volta para aquele vento que vinha vindo, Ilha Anchieta, Praia do Flamengo e, depois, os 50 km de mar aberto da Baia de Caraguatatuba. Difícil decisão. Subi a âncora, pedi para o Klaus fechar as escotilhas, guardar tudo que estava solto, Marcia sentada no chão do camarote com colete salva vidas, também  já colocados em todos nós, e iniciamos a volta.

O celular, no suporte ligado no carregador, e no site do grupo de navegação que vinha junto com o Delta 24, informando a localização da tempestade.

O casco Carbrasamr foi feito para navegar a 17 nós em velocidade  de cruzeiro, mas agora ele teria que ir muito alem disto para ganhar esta corrida. Já o motor Volvo moderno tem alta rotação e suporta esforço prolongado; ia ser um jogo do perigo contra a prudência e isto iria durar várias horas. A sorte é que antes de uma tempestade de alta magnitude, o mar fica totalmente liso e o vento pára. Fui acelerando lentamente para encher o turbo e o after cooler de maneira continua; só faltava agora dar um sobre-esforço mecânico e uma pane resultante por puro pânico.

Os 17 nós chegaram lentamente, como deveriam chegar, pressão do turbo crescendo devagar, temperatura constante, fui acelerando bem devagar: 18 nós, 19, 20, o barco começou a perder estabilidade… o Magrão telefonou mandando apertar o passo , todas as marinas chamando os barcos de volta , o DELTA 24 a cada 15 minutos dando a chamada de emergência , dificil não entrar em pânico.

O dia simplesmente espetacular, mar absolutamente plano sem vento, 21 nós, 22, 23, 24 nós, o ronco do Volvo estava nas alturas, girando alucinadamente, perto dos 100% de potência, coisa a ser evitada a qualquer custo, a ser usada por momentos apenas, mas agora ele teria que aguentar duas horas! Se ele não aguentasse, eu usaria o motor auxiliar para correr para um abrigo meia boca, mas melhor que nada.

Um olho na temperatura do motor, outro na proa do barco, qualquer onda que eu pegasse seria uma capotada espetacular. Eu entrei na baia do Saco da Ribeira, passei na frente da casa do Klaus, ele simplesmente mergulhou e voltou nadando para casa, eu dei meia volta e voltei para o alto mar .

Seria o que sempre foi a vida, a Márcia e eu para o que desse e viesse!

Na passagem da Ilha do Mar Virado, veio o alerta de Itanhaem: velocidade do vento 70 nós e subindo, e vindo para Santos. Eu tinha agora a Baia de Caraguatatuba pela frente, 50 km de mar aberto e um vento de força chegando a um furacão. Uma bolsa de oceano quente ao largo de Itanhaem estava acelerando mais ainda o vento. Não liguei para o canal 16, pois sabia que ali só haveria chamado MAYDAY,  que significa socorro. Continuei no 68 que era onde estavam os que ainda sobreviviam.

Mas o calculo foi simples: a 70 nós de velocidade do vento eu chegaria com uma pequena margem de segurança na marina, uma meia hora apenas se tudo se mantivesse estável.

A entrada no canal de Ilha Bela a toda velocidade foi estranha pois todo mundo que ainda estava no mar estava com a manete toda aberta, os barcos mal tocavam n’água. Um barco tipo offshore que são os modernos andam a 40 nós e eu nos 24 nós!!

Avisei o Magrão que eu estava perto, ele colocou  a carreta n’água, subi direto de prima, o trator acelerou e saímos  do mar. Eu estava completamente exausto, a Márcia com seu sorriso deliciosamente inocente me acalmou, e fomos para a sala de conforto da marina tomar um café.

Foi sentar na cadeira desabou o mundo!

A sala do radio fica ao lado da sala do café e só ai percebi que estavam chamando o catamarã “Twin Green”, já com a tempestade rugindo no seu máximo. No dia seguinte ficamos sabendo que naquele momento ele já tinha naufragado, a Caroline Bittencourt já estava morta e o Jorge lutava dentro d’água para salvar a própria vida vendo a esposa submergir dentro das ondas .

O Jorge Sestini e ela eram os tripulantes do catamarã…

OS LINDOS OLHOS DA CAROL: fecharam-se para sempre.

 

8 comments

  1. Décio Kerr Oliveira 7 julho, 2019 at 23:45 Responder

    Emocionante o relato. E um viva à experiencia do Flavio que trouxe seu barco a tempo para a segurança da sua marina.

  2. Décio Kerr Oliveira 9 julho, 2019 at 12:42 Responder

    Flávio, ainda iremos compartilhar nossas (minhas e suas) experiencias no mar a bordo de uma de suas lanchas. Muito obrigado pelo convite.

  3. Claudio Rossi 11 julho, 2019 at 08:35 Responder

    Muito emocionante a crônica do Flavio. Emocionante verdadeira e bela. Felizmente a experiência e a prudência de nosso querido amigo permitiu que a Marcia, ele e todos nós fôssemos poupados de maiores tristezas.

  4. Eduardo Berger 5 agosto, 2019 at 08:40 Responder

    “Thriller” da melhor qualidade! E como é traiçoeiro esse marzão do litoral norte paulista! Não deixa de ser um alerta, um “AVISO AOS NAVEGANTES”!

  5. Randolfo 6 outubro, 2023 at 18:29 Responder

    Muito comovente.
    Grande cirurgião vascular Dr Flávio Soares de Camargo.
    Tive o previlégio de ser operado de varizes com ele. Grande profissional
    E na oportunidade, dei a ele de presente,um telefone preto a disco de baquelite da década de 50. Pois pecebí em seu consultório que ele era fascinado por antiguidades.
    Grande abraço Grande Dr.

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