terça-feira, junho 25

O PRONTO SOCORRO DE CLÍNICA MÉDICA, Roberto Anania de Paula

1
234

A nossa turma foi a última do internato em um ano. A partir de 1970, o mesmo passou a ser de dois anos.

Durante os três primeiros anos de faculdade: cadeiras básicas – muito chatas, não? Depois, dois anos de propedêutica hospitalar e disciplinas clínicas e por fim o esperado internato. No quinto ano, só pensávamos na viagem à Europa.

Enfim, o sexto ano! Cabelo curto, “adios” às namoradas recentes e, somente hora de aprender medicina. Este era o pensamento vigente . Que ato institucional (AI nº5), que revolução, que nada!! Ou aprendíamos medicina ou não. E assim iniciamos o internato.

Éramos, acredito , seis grupos de 17 internos na 52a. Cada um dividido em sub-grupos de 6 ou 7. Reinaldo Borgiani, Romeu Abrão Abdalla, Milton Della Nina, Pio Pereira dos Santos, Masa Tsuji Bezerra e Roberto Anania de Paula constituíam um destes. Começamos o estágio no Pronto Socorro de Clínica Médica, cujo preceptor era o Dr. Rocha. Logo pela manhã, história, exame físico, discussão com os residentes, visita do assistente do dia e visita na enfermaria com o PROFESSOR ANTONINO DOS SANTOS ROCHA, que nos deslumbrava, pela didática, pelo interesse em ensinar e também resolver os problemas.

Num dos primeiros dias, me defrontei com uma japonesa jovem, com aquilo que chamávamos de “peri-paque”: ou seja crise histérica. Não se comunicava, apresentava movimentos descoordenados, olhos que reviravam, gemidos e etc… Examinei, discuti, diagnosticamos (histerismo) e logo a conduta vigente foi praticada: hipercapnia com máscara de plástico, deitar no chão e borrifar solução de amoníaco ao redor da cabeça e nariz, injeção de salicilato intra-muscular, etc.. Nada. Nada! Nada deu resultado. Parecia que o quadro mais se agravava, quanto mais fazíamos. Desista Anania, trata-se de japonesa, com problemas familiares complexos. Situação difícil de ser resolvida, sobretudo no pronto socorro. Temos experiência com nipônicos assim. Desista, diziam os residentes.
Durante todo o dia, não me conformei. Tentei conversar, falei com familiares, repeti as manobras e nada mesmo.

O livro “A Estratégia da Lagartixa” do nosso colega Dário Viana Birolini- sobrinho do Dr. Dário Birolini, publicado há uns dez anos, relata inúmeros “causos” do HC. Muito deles vocês irão se lembrar, inclusive este, sem relatar o autor. Pertencem ao folclore do Hospital da Clínicas. Recomendo a leitura.
Relata o Darieto, que muitas situações imprevistas são resolvidas pelos médicos, mesmo sem conhecimento anterior. Simplesmente pela intuição.

Continuando, no fim do dia, não queria passar o plantão com um caso não resolvido. Fechei as cortinas, deixei o PSM numa penumbra e sem saber porque disse: “Moça o hospital vai fechar. Levante. Levante, e rápido. Não queira ficar aqui com os mortos e doentes”. Ato contínuo a jovem acordou, levantou e resolveu ir embora. Não fiquei sabendo o final, a moça foi embora com a família. Penso que os psiquiatras podem explicar melhor o caso, mas recentemente numa conversa com o querido Lalaina, ele relembrou a autoria do fato e disse da minha proeza realizada por um candidato a cirurgião. Não sei porque tomei aquela atitude na ocasião. O fato virou folclore do HC. Trata-se de mais uma contribuição relevante da 52a!

Só sei que ontem , hoje e sempre, estamos “TODOS JUNTOS NA 52A TURMA.

1 comment

  1. admin 22 março, 2018 at 21:54 Responder

    O Roberto Anania de Paula contou ainda:
    “Quanto ao Prof. Dr. ANTONINO DOS SANTOS ROCHA, NOSSO HOMENAGEADO COM TODA JUSTIÇA, SE TORNOU PRIMEIRO TITULAR DA DISCIPLINA DE PROPEDÊUTICA GERAL DA FMUSP, EM 1987. INFELIZMENTE, EM 18 DE OUTUBRO DE 1990, DIA DO MÉDICO, FOI COVARDEMENTE ASSASSINADO AO CHEGAR EM SUA RESIDÊNCIA. FOI MAIS UMA VÍTIMA DE LATROCÍNIO EM SÃO PAULO. Eduardo Berger – 2017)
    ———————————————————————————————————————————-
    Tirar história na madruga era demais. (Joel De Mello Franco – 2017)
    ———————————————————————————————————————————-
    Era mesmo demais! E foi bom demais: ter sido jovem; e ter a chance de aprender com esses “monstros sagrados”; e aproveitar aquela oportunidade única para ter essa profissão, que nos proporcionou construir patrimônio, constituir família, formar os filhos. Foi, mesmo, demais! Foi + Q D +!! (Eduardo Berger – 2017)

Leave a reply