sexta-feira, junho 19

O RABO DA SERPENTE / “VIDA DE MOTOQUEIRO”, por Flavio Soares de Camargo

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O tempo passa, nós passamos, sonhar acordado faz parte, quem não sonha já abandonou boa parte do bem viver; junto com isto vieram os eventos Pereira, Lalaina, Ortolani e muitos outros…

Já chegado nos 80, agora viúvo e semi- aposentado, resolvi transformar sonhos em ação.

Um deles foi voltar ás aulas de dança, e o segundo, entrar no grupo de turismo com motocicleta. Atualmente este tipo de turismo está em franca expansão principalmente nos estados do sul do pais, sendo que Santa Catarina lidera o investimento neste tipo de atividade. São Paulo já desenvolveu bem também, e Minas Gerais está começando. As rotas já estão sendo divulgadas, e uma espécie de clube dos aficionados dá as dicas das rotas selecionadas. Estas rotas, já demarcadas, têm restaurantes, pousadas, estradas cênicas, enfim, o apoio necessário para um passeio prazeroso.

Fui e sou motoqueiro a vida toda, iniciei com uma vespa, depois durante 40 anos tive uma Yamaha DT 180, que um colecionador levou deixando em troca uma Honda XRE 190 semi-nova na troca. Tem louco para tudo!

Com esta nova moto, comecei a viajar no entorno de São José dos Campos e, a cada passeio, mais apaixonado pelo motociclismo fui ficando. Pequena, ágil, econômica, confortável e muito leve, me sentia a vontade em cima dela. Nas estradas pitorescas, perfeita, mas nas auto estradas, tipo Ayrton Senna, ficava a desejar, os caminhões andam a 110 e ela mal se mantinha a 95 km/h. Depois de ter que vir de Taubaté até São José dos Campos pelo acostamento, para fugir deles, resolvi dar um passo para cima. Gastei as calças experimentando motos: comecei com as grandes: BMW, Honda, Tryumph, Suzuky, e percebi que as pernas dos 79 anos não davam para sustentá-las, e vim baixando as escolhas até chegar numa BMW 310 cc – recém lançamento, um pouco alta demais, mas com potencia que me permitia ultrapassar e andar com conforto, acima dos 110 km/h se necessário fosse. Discuti minha escolha com nosso motociclista senior, Dr Décio R. Kerr de Oliveira e, com a aprovação dele, fiz a aquisição.

Paralelo a isto, minhas aulas de dança foram se aprimorando e voltei ao status de sobrevivência num salão de baile. Bem, é verdade que no grupo dos 70+, e usando órteses para os joelhos, mas fui em frente: não temos mais tempo para adiar sonhos!

Enquanto ia me aprimorando como motoqueiro e dançarino, fui me inteirando das rotas de motocicleta para o sul. “Rabo da Serpente”, o Décio me corrigiu, “Rastro da Serpente”, “Estrada da Graciosa”, “Rio do Rastro”, “Serra do Corvo Branco, “Serra da Rocinha”. e dai pra frente… Um sem numero de trajetos cênicos, já cadastrados nos roteiros turísticos de moto. A minha BMW não era lá tão potente, mas sozinho, sem garupa, daria conta! Lista feita do que teria que levar, tive que refazê-la, tirando 90% do escolhido pela total impossibilidade de transportar.

A ideia inicial BMW 310 GS

No dia escolhido para a partida, já paramentado, esperando ansioso para o dia clarear, neblina fechada, comecei a tiritar de frio – vi o termômetro, 10º C!!! Caramba, a sensação térmica numa moto, geralmente, é de cinco a dez graus a menos!!!

“A lógica, adaptada à faixa etária”

Ao lado da moto um Audi A4 novo, brilhando, com o tanque cheio, com ar condicionado digital quente e frio, macio como um colchão Epeda de luxo – não tive dúvida, já tinha chegado nos 80 anos, transferi a carga da moto para o porta-malas do Audi, e o mais que eu havia descartado…  e ficou faltando “alguma coisa” para completar aquele veiculo imenso: companhia! Na bucha, assim, quase de madrugada? O George Eliani, FMUSP (53ª), é meu saco de pancadas, mas com saúde muito precaria. Percorri a lista das possibilidades, e eis que tive uma ideia brilhante: meu grupo de dança! Este era constituído de pessoas de idade compatível, viúvas, todas elas divertidas, vividas, com filhos já crescidos e portanto livres.

Por que não? Quem não arrisca não petisca. O grupo era estável, já há vários meses. O convívio, duas vezes por semana, dava alguma intimidade ao grupo; não deu outra, “já topei” foi a feliz resposta que eu estava esperando. Eu vinha conversando sobre este assunto há algum tempo com ela. O flho, quando soube, teve um xilique: -“mããããe, você com 80 anos e Dr Flávio com 90! O que vocês farão? Não pode dar certo, é perigoso ele guiando para tão longe! A resposta de M foi simples: -“ele tem só 80”!

E lá fomos nós para o Rastro da Serpente! Ela começa em Capão Bonito e termina em Curitiba. São 270 km com 1.280 curvas dentro da Mata Atlântica – um passeio de rara beleza, asfalto bom, e panoramas incriveis! Em Capão Bonito, ficamos no Hotel Passarim, em frente ao posto de motoqueiros. Uma grata surpresa, um belíssimo e simpático estabelecimento, no meio da cidade e dentro de uma fazenda: quase que estraga nossa viagem, pois a vontade era ficar ali mesmo. Veja as fotos… e a 250 reais para o casal, com café da manhã! Espetacular!

No restaurante de motoqueiros, encontramos a tribo toda e pegamos todas as dicas possiveis. O dono do restaurante motoqueiro empedernido já havia feito o passeio ao sul várias vezes.

Terminando o Rastro da Serpente, o passo seguinte seria a “Estrada da Graciosa”, que liga Curitiba ao litoral, pela antiga Estrada Imperial, toda em paralelepipedo, dentro da mata! Valeu!

Em seguida, litoral do Paraná, Guaratuba, estância de veraneio e charmosa cidade beira mar; fomos dormir em Pomerode, passando ao largo de Blumenau. Esta é a mais alemã cidade do Brasil. Frio intenso, uma charmosa pousada com uma escada de uns 40 000 degraus para chegar nela… Mas uma vez dentro, foi aconchegante. Mas os valores, sempre dentro de bolso de motoqueiro, de 170 a 300 reais todos os pernoites, com café da manhã.

Em Guaratuba, litoral paranaense

No dia seguinte, uma puxada para Urubici, no planalto de Santa Catarina, entre a Serra do Rio do Rastro e a Serra do Corvo Branco, ambos lugares extremamente procurados pelas tribos de motoqueiros. Eram centenas deles, em todos os lugares, temperatura externa a noite Oº C: como eles podiam viajar assim não sei, dentro do Audi, com aquecimento ficava suportável, mas abrir a porta era uma pedrada gelada. 

Serra do Corvo Branco, com uma boa infra estrutura turística, mas a descida, abaixo do corte no morro onde passa a estrada, está ainda sendo pavimentada de concreto, pois o asfalto com gelo fica liso e impossibilita o tráfego; já a Serra do Rio do Rastro, uma incrivel descida de curvas, onde o “parachoque dianteiro quase bate no trazeiro” de tão apertadas que são elas, é mais um treino de coragem e habilidade para descer, devido aos onibus e caminhões que tentam fazer as curvas sem sucesso. O panorma, dizem ser lindo, mas o motorista não pode tirar o olho da estrada nem por um segundo! As fotos foram feitas pela parceira, pois eu segurava o volante com as duas mãos.

A volta foi um pernoIte em Blumenau, onde o jantar foi no bairro Germania, no restaurante “Alemão Batata”, especialidade: BATATA! Uma delicia! Lotado e muito bem servido, e preço melhor ainda.

Passo seguinte, Cananeia, um lugar mágico do meu passado, onde fui há 40 anos, de Cananeia a Paranaguá, de barco pelo Canal do Varadouro. Acho que postei esta outra aventura neste site. Um lugar encantado. Parou no século 18. Mais ai já é outra estória…

Dai para São Sebastião e São Jose dos Campos. Ao deixar a encantada parceira na porta de sua casa, foi a última surpresa: -“Obrigada, Flávio, pelo delicioso passeio! Eu havia feito esta mesma viajem com meu falecido marido, na nossa lua de mel, há 55 anos – foi por isto que aceitei de cara!!!!” Uma sensação estranha de ter sido usado me ocorreu, mas fazer o que? Mas a companhia valeu e muito!

E assim a vida segue!

2 comments

  1. DECIO R KERR DE OLIVEIRA 19 junho, 2026 at 13:25 Reply

    Belíssima reportagem meu amigo!
    Texto muito bem redigido e fotos maravilhosas, trabalho de profissional!
    Não vou nem perguntar qual é a marca da câmara (kkkk).
    Esta viagem feita de moto nesta época é realmente fria, mas nunca “uma fria”. A cada 10 km/ h de velocidade do vento a sensação térmica cai 1° C.
    Parabéns Flávio, que venham outra

  2. PEDRO TAKANORI SAKANE 19 junho, 2026 at 13:27 Reply

    Que passeio legal, Flávio e, descrito por você, fica melhor ainda. Fotos muito bem tiradas. Lavou sua alma, hein?
    Ha decadas atras, fiz uma viagem semelhante. Estava indo para Sta Catarina, eu me desviei da Regis, fiquei perdido, e de repente estava numa rodovia estreita, tortuosa, beirando a serra. Tinha placa para Blumenau. Vista maravilhosa, mas pouco curtivel para o motorista, e acabei chegando a Blumenau. Isto, há quase 50 anos. Eu nunca soube o nome da rodovia.
    E curta bem a nova companheira

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