sexta-feira, fevereiro 23

O cliente centenário por Eduardo Berger

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Início dos anos ’90, o “velho Antonino”, um oriundi aqui do meu bairro, rico proprietário de um muito bem sucedido estabelecimento comercial, me trouxe ao consultório, em caráter de urgência, o Francesco Mario – seu pai! Acreditem: o pai do “velho Antonino” era um macróbio próximo de completar seu centenário de vida, mais precisamente 98 e algumas semanas.

Ambos sentados à minha frente, já tendo elaborado a história da moléstia, feito o exame físico e verificado as imagens da radiografia abdominal, tinha eu a certeza do  diagnóstico de abdome agudo obstrutivo, em alça fechada. Quadro típico, instalado há poucas horas, porém chamava a atenção o surpreendente bom estado geral e nutricional do ancião, que era absolutamente surdo. Usando de uma artimanha habitual, fingi que coçava a barba e o bigode, ocultando os lábios para que ele não os lesse, e disse ao filho que era um provável câncer do sigmoide e que uma cirurgia de emergência se impunha. Antonino falou bem baixo, tentando esconder do pai, que era melhor “deixar pra lá”, “não tratar”, que “o pai já estava muito velho”… Pois o tal Francesco, com a sensibilidade própria dos deficientes, e a sabedoria que a idade avançada costuma propiciar, percebeu algo e, com o típico acento dos que vieram da “Bota”, saiu com essa: -“Dotore… veglio? Io? No, no, no! Vam’operá”!!

Na sequência, o cardiologista, os exames subsidiários, a avaliação pré anestésica, a cuidadosa hidratação endovenosa… e nos preparamos para a batalha. Enquanto ele era transportado ao centro cirúrgico, a sós com a família, claro que salientei os riscos normais do procedimento e, sobretudo, pela idade avançada. Mas, aqui entre nós, sempre achei que esses pacientes muito idosos são uma “amostra selecionada” da sociedade, são extremamente resistentes, sobreviveram às epidemias, às guerras, às carências de vacinas e medicamentos eficazes…  Enfim, confiava num bom resultado. E foi assim: feita a laparotomia (a vídeo-cirurgia ainda não era praticada), encontramos um tumor pequeno, mas obstrutivo, do sigmoide distal, além de expressiva distensão de toda a alça cólica, já com um ceco “meio sofrido”. Não tive dúvida, optei pela colectomia total e íleo-reto-anastomose – mesmo porque, nessa idade, não há sentido de se pensar em “segundo tempo” e os idosos se adaptam muito mal às estomias.

Ele teve um pós operatório sem complicações e recebeu alta hospitalar em ótimas condições – não lhes disse que esses velhinhos são danados de fortes? O estadiamento tumoral resultou muito bom, não tendo sido necessário nenhum tratamento adjuvante e, nos retornos que se seguiram para retirada de pontos e seguimento, fiquei sabendo mais algumas peculiaridades do paciente. Ele gostava de caminhar em torno do quarteirão de sua residência, usando sempre duas bengalas, uma em cada mão, já que sua marcha era bem dificultada por acentuado geno varo;  mas, que se cuidassem as domésticas do bairro, já que ele era um galanteador e um paquerador incontrolável!! Outra: gostava muito de beber vinho e aí, encontramos algo em comum, “ficou meu amigo” e me intimou a ir brindar com ele, quando de sua próxima comemoração dos cem anos de idade.

Passados alguns anos (!), teria ele uns cento e três, de novo no consultório, à minha frente, ele e o filho. A razão da vinda era um encaminhamento do seu dermatologista que, sabedor da cirurgia pretérita, pedia-me uma avaliação (?!), já que iria retirar um belo carcinoma basocelular, bem evidente em sua testa… Claro que, de minha parte, nenhum impedimento havia. Batemos um bom papo e ele me falou de seu reconhecimento pela boa recuperação que teve; estava muito agradecido e, demonstrando sua irrestrita confiança em mim,  perguntou-me, de forma simplória, se eu não poderia operar seus joelhos (hehehe!), muito dolorosos e prejudicavam sua marcha e suas “paqueras”… Finalmente, reclamou que eu não tinha comparecido à sua festa do centenário. Claro que eu não teria faltado! Simplesmente, não fui convidado… Ao ouvir de mim este fato, virou-se para o “jovenzinho”, seu filho, quase octagenário, e desancou a lenha: -“Antonino, moleque safado, suo farabutto, stupido, stronzo! No convidô il dottore pra mia festa”?! E meteu-lhe umas boas bengaladas, ficando a cena ainda mais hilária, com o “garotinho” tentando proteger-se com as mãos a frente do rosto e choramingando: -“No, no papá, no me bata, no me bata”!

12 comments

  1. FLAVIO SOARES DE CAMARGO 26 agosto, 2019 at 14:44 Responder

    ESTA CONDUTA INTERVENCIONISTA, TRAZENDO BEM ESTAR FISICO A UM ANCIÃO, VALE OURO.
    TENHO FEITO CIRURGIAS DE VARIZES EM NONAGENÁRIOS COM O MESMO SUCESSO E GRATITUDE PELO BEM ESTAR CONSEGUIDO.

  2. anita saldanha 26 agosto, 2019 at 20:31 Responder

    É um vencedor nato este seu paciente, Eduardo; já vivi experiências parecidas e também as contrárias com pacientes jovens morredouros por antecipação.

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