sexta-feira, fevereiro 23

GARANTIR A MINHA! BONNO VAN BELLEN

0
206

O marido tinha uma trágica história de tromboses sucessivas.

Começou com uma trombose venosa extensa de membro inferior. Ficou internado vários dias sendo heparinizado. Era muito sintomático, quase uma flegmasia cerúlea. Mas acabou indo bem para casa. Era jovem, uns 45 anos. A esposa era até bonita, mais jovem que ele e muito preocupada com a saúde do marido. Retornou várias vezes para acerto e adequação do anticoagulante, alguma anti-vitamina K. O relacionamento com o casal era muito amigável e entre os dois havia uma agradável manifestação de afeto mútuo.

Alguns meses depois da trombose venosa, ele foi ao pronto-socorro com uma terrível dor na outra perna. Ela estava fria, cianótica, sem pulsos. Desta vez a trombose era arterial. A intervenção foi um desastre. Foi para cirurgia, o cateter de embolectomia resgatou enorme quantidade de trombos, mas logo trombosou de novo e evoluiu para isquemia irreversível. Um desastre! Paciente relativamente jovem, com aparente boa saúde, amputado em coxa. O pós-operatório foi algo tumultuado. Demorou para cicatrizar o coto, que permanecia edemaciado. O estado geral do paciente começou a deteriorar, pouco, mas de forma bastante perceptível. A investigação clínica, afinal, detectou uma neoplasia de pâncreas. Grave, muito grave. As tromboses sucessivas se caracterizaram como uma síndrome paraneoplásica.

A esposa estava abatida e preocupada. Todos os dias ia ao consultório para conversar. Chorava muitas das vezes. Achei que as visitas eram um pouco demais, mas não tive coragem de lhe dizer que não adiantava vir com tanta frequência. Depois de uns 10 dias ela já estava um pouco mais conformada com a situação. Mesmo estando o marido a piorar progressivamente. Mas ela estava mais leve. Começou a se vestir com roupas mais coloridas, mais esvoaçantes. O cabelo estava melhor penteado, a maquiagem estava mais caprichada. Como sempre, eu abria a porta para ela ao sair, como fazia para qualquer paciente. Um dia ela tropeçou, talvez no próprio pé, e acabou encostando quase o corpo todo em mim. De frente. Os seios, abundantes, se aconchegaram no meu peito e houve certa demora para que ela retomasse o equilíbrio. Foi um acidente.

Dois dias depois, também na porta, ela achou que tinha deixado alguma coisa na minha mesa e se voltou passando as nádegas lentamente sobre minha região púbica. Descobriu que não tinha esquecido nada e me disse isso sem se desencostar, virando sensualmente a cabeça para mim. E o marido estava morrendo no hospital. A ideia me deixou chocado! Ela estava se insinuando escandalosamente enquanto o marido morria! Era paixão? Teria sido assim mesmo com o marido em bom estado? Estava já querendo garantir um substituto para quando ele morresse? Não dá para saber. O fato é que não havia qualquer esperança para ele e assim sendo, morreu alguns dias depois e com isso resolveu-se meu problema.

Nunca mais a ví.

Leave a reply