quarta-feira, junho 19

O TROTE RECEBIDO… INESQUECÍVEL! Eduardo Berger

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O TROTE DE 1964!!!

Os devaneios de nossas lembranças, as passagens que se tornam lendas, as pequenas variações das histórias que contamos dos bons velhos tempos…

Com as devidas reservas das assertivas acima…  “Tudo está vivo em minha mente como se fosse hoje, já que fui participante direto do episódio. O fato ocorreu ao longo de apenas algumas horas, no primeiro dia de aula do longínquo 1964, quando nossa turma, a gloriosa 52ª, iniciava sua vida universitária com aquela indescritível emoção de quem adentra, pela vez primeira, no “santuário” de Arnaldo! No cadinho das emoções, mesclavam-se perplexidade, dúvidas, um pouco de temor e a incrível satisfação de tornar realidade o sonho de ali estar!

Fomos encaminhados, cedo na manhã, ao Mural do Calouro, junto ao elevador, bem na entrada do DF (Departamento Feminino), no porão da Faculdade – lá, as instruções. Um certo tumulto: “para onde ir”, com quem falar. Uma jovem, pequenina, cara de criança, demonstrava mais apreensão que os demais, estava ao meu lado e perguntou se eu sabia como deveríamos agir, o que fazer… Galanteador nato, herança de papai, já me coloquei às suas ordens, dizendo que ficasse ao meu lado, que me acompanha-se (eu protetor, na verdade tão perdido quanto ela…).

E foi assim, que fomos ao Anfiteatro da Anatomia, assistir a Aula Inaugural, ministrada pelo venerável Odorico Machado de Souza, Catedrático autêntico, que nos emocionou falando sobre o “Respeito ao Cadáver” – este, com sua nobreza, seria nosso material de estudo, nosso companheiro, nossa fonte de aprendizado! A ele todo o reconhecimento pelos ensinamentos que nos proporcionaria, e todo o respeito que nos foi solicitado ainda eram poucos para pagarmos nossa dívida de gratidão!

Mais tarde. o almoço no indefectível Bar do Abel e, a seguir, subir ao anfiteatro da Bioquímica, para a aula da tarde. Isaias Raw, outro “monstro sagrado” do saber e da ciência, falou-nos de coisas absolutamente desconexas para nossas pobres cabecinhas juvenis! Foi uma introdução ininteligível à Bioquímica – felizmente curta – e ele a encerrou, dizendo que iria ceder espaço para os representantes do C.A.O.C., já que a primeira semana de aula era chamada “semana dos departamentos do centro acadêmico”, e os “veteranos” iriam nos expor as atividades, convidando-nos a delas participar.

Benjamim Posso (51ª), 2º secretário, assumiu o comando e deu-nos as “boas vindas”, acompanhado de outros membr do C.A.O.C. – um a um foram nos explicando os diversos trabalhos que os acadêmicos desenvolviam e dos quais poderíamos participar: publicações, cientifico, social; na sequência, os colegas da A.A.A.O.C. exaltaram as atividades desportivas da MED, e passaram listas para que anotássemos nossos esportes de predileção, etc.

A “coisa” ia assim, tranquila, quando entra subitamente no anfiteatro um “japonês” absolutamente irado, agitando um documento na mão, aos brados, interrompe os “serviços” e exclama aos gritos que há uma intrusa entre os calouros! Fora aprovada em escola médica do interior mineiro e conseguira, mercê pistolão político, a transferência para a “augusta, intocável, maravilhosa Casa de Arnaldo”. Ato contínuo, o anfiteatro foi invadido por dezenas (uma centena?) de veteranos, que gritando, faziam coro com o japonês: “INTRUSA! INTRUSA!! Que se apresente a intrusa!”

Era aquela pequena jovenzinha, que eu esperava estar “protegendo” – levanta-se, trêmula, com os olhos no chão e, muda, olhos marejados, é insultada: palavrões e arremessos de bolas de jornal, sapatadas, etc!! Uma demonstração de profunda falta de educação!! UMA SELVAGERIA!!

Alguns de nós, inclusive eu, nos levantamos e nos manifestamos com veemência em defesa da moça e, sob intensa vaia dos veteranos, tentávamos (aos berros) ponderar que, realmente, não era justa a tal transferência, mas isto não nos dava o direito de maltratar uma senhorita indefesa. Mais vaias, mais arremessos de objetos e gritaria…

“Pensei que os colegas da USP fossem mais educados, mais civilizados – QUE DECEPÇÃO…”

O japonês bravo, em dado momento, fez menção de estar fazendo uma contagem do número dos presentes, e anuncia na sequência: “Senhor secretário: observo haver quorum suficiente para a instalação de uma assembléia geral extraordinária do CAOC. Que se manifestem os que estiverem de acordo com a permanência da caloura, já que estando entre nós, já matriculada, já e membro do corpo discente desta Casa… por outro lado, se a considerarmos invasora que seja expulsa de imediato.”

Compõe-se uma mesa diretora, um calouro é escalado para lavrar a ata. Tem início a assembleia proposta, uma série de depoimentos, brigas, xingamentos, tornando o ambiente carregado, insustentável. HORAS A FIO…

Aí, chega uma notícia nova: o irmão mais velho da moça, também conseguira transferência, para o 5º ano da São Francisco (!!), as respeitadas “Arcadas da 11 de agosto” e que, quase advogado que era, viria falar em defesa da irmã. Ele entra: paletó e gravata, peito estufado e mal começa a se manifestar, sequer duas palavras, é “coberto de porrada” e é escorraçado, saindo da sala correndo, acompanhado de alguns veteranos que o expulsam com violência e… não consegue conter uma risadinha… Eu, “genialmente”, pensei comigo: “que sujeito esquisito, leva pancada e ri”!? Eu era, como os demais, um calouro burro mesmo, para não perceber que tudo era uma grande e muito bem encenada farsa…

E eis que, após umas três horas de exaustiva assembléia, a gente meio morto, o “japa” limpa seus óculos de grossas lentes e proclama: “Um momento! Um momento! Deixe-me prestar mais atenção…” – põe os óculos de novo, fixa os olhos na “intrusa”, e proclama: ”acho que minha miopia está realmente piorando, preciso trocar estes óculos, só agora consigo reconhecer essa “caloura”: ela é, na verdade, uma nossa querida colega do 5º ano!! SEUS CALOUROS BURROS FOI TUDO BRINCADEIRA!” Gargalhada geral dos veteranos e nós, os “burros”, atônitos!

Não caiu a ficha de imediato… Muitos ainda se perguntavam: “mas e aí, ela fica ou sai?” Demorou mesmo alguns longos segundos até que “acordássemos da hipnose” que, com sabedoria e classe, aquele bando de veteranos nos havia imposto! Rimos muito e continuávamos ouvindo: “CALOURO BURRO, foi uma farsa, uma pegadinha, CALOURO BURRO”! A salva de palmas que se seguiu foi de emocionar – abraçamo-nos com os veteranos e descemos todos pro bar do Abel: cerveja pra todos! Quem paga? Os calouros, obviamente!

ESSE FOI O TROTE A QUE FOMOS SUBMETIDOS… INTELIGENTE!! FINO! Como tudo que vem da Casa de Arnaldo

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OS PROTAGONISTAS DA FARSA:

  • O “japonês bravo”: saudoso e notável Içami Tiba (51ª turma) psiquiatra, psicodramatista, escritor de diversos livros sobre educação familiar e escolar; criador da Teoria da Integração Relacional, que facilita o entendimento e a aplicação da psicologia por pais e educadores.
  • A “caloura transferida”, Mariza D’Agostino Dias (48ª turma), “intensivista por amor”, pioneira nesta área (co-criadora da Sala 4030 do PS  e da Unidade de Choque da Clínica Médica, ambas no HC da FMUSP), chefiou UTIs do Sírio Libanês e do 9 de julho, pioneira e referência da Medicina Hiperbárica em nosso país.
  • O “quase advogado”, Arthur Belarmino Garrido Jr (49a), gastrocirurgião, um dos mais importantes orientadores da minha carreira, pioneiro da cirurgia bariátrica no Brasil.

… E mais todos os demais veteranos, admiráveis!

8 comments

  1. admin 22 março, 2018 at 11:10 Responder

    Alguém tem fotos da ocasião. Pensamos em ilustrar com com algumas fotos os textos para eventual publicação no nosso livro de memórias. (Roberto Anania de Paula – 2017)

  2. Marisa Soares 28 setembro, 2023 at 16:58 Responder

    Que memória, Berger! Eu devo ter perdido essa aula, pois não me lembro de nada. Lembro-me do trote que ministramos aos nosso caloros no ano seguinte. Mas ao ler seu depoimento, senti muito não ter participado dessa aula.

  3. Roberto Anania de Paula 24 janeiro, 2024 at 14:39 Responder

    O meu trote foi um aplauso de todos os presentes ao término de aula do Prof. Lacaz, quando o Lourival em nome de todos disse que a 52a tinha um novo membro. Alguns já me conheciam: Vicente porque ėramos de Barretos, Cabral e Murilo contemporâneos do Colégio Arquidiocesano de SP, Faintuch porque ėramos colegas no Colégio Estadual Macedo Soares na Barra Funda, Egashira e Mamed do cursinho 9 de Julho e os demais esportistas, pelo conhecimento da minha participação na Pauli-Med. Sou eternamente grato a todos que me acolheram como um irmão naquela ocasião.
    . Um abraço a todos.

  4. Eduardo Roque Verani 24 janeiro, 2024 at 15:12 Responder

    Anania, sua vinda engrandeceu a 52ª, assim como as vindas da Clara, da Masa, do Flávio, do Ruy, do Zé Valdir Castro, do Leonardo (embora não se tenha entrosado bem).
    Todos foram bem recebidos , como mereciam .

  5. MARIZA D'AGOSTINO DIAS 27 janeiro, 2024 at 23:32 Responder

    Caro Eduardo

    Nossa, essa história foi muito interessante e divertida!

    Na verdade nada foi combinado comigo. Inicialmente tratou-se de fazer uma brincadeira somente com as meninas calouras dentro do Depto Feminino, dizendo que eu era uma caloura transferida. Naquela época esse era um assunto sensível, ninguém queria saber de alunos que tivessem entrado sem vestibular, que já então era super concorrido. Ocorre que num determinado momento chamaram todos os calouros e eu fui junto, ainda sem resolver bem quando iria ser revelada a verdade. Sentei-me no meio do grupo, continuando no papel de transferida, aguardando os acontecimentos. Fui pega totalmente de surpresa pela entrada dos veteranos fazendo algazarra, mas daí achei que não ia estragar o trote e continuei desempenhando meu papel. Vários calouros vieram falar comigo e fui ampliando a personagem. Criei um pai militar que fora transferido e que por isso eu tinha que vir junto. Naquela época isso parecia um motivo plausível, e deixei correr. Por fim, depois de um enorme tumulto, que eu não sabia como iria ser resolvido, o Tiba me salvou, desvendando a verdade! Fiquei bem aliviada porque parecia que tinha sido tudo combinado, e achei que até que me saí bem, embora alguns calouros ficaram com raiva, porque tinham sido enganados! Sua história me fez novamente lembrar de uma época em que tudo era brincadeira sem compromisso, foi-se esse tempo! Acho que você tem razão, esse foi um dos melhores trotes que eu assisti. Atualmente não tem nada disso. É bebedeira forçada, humilhação nada criativa, uma pena, naqueles tempos tinha arte, as pessoas elaboravam, pensavam e por fim, todos se divertiam, milhões de vezes melhor.

    Agradeço suas generosas referências a mim, inclusive achar que tudo foi ensaiado; realmente o Tiba foi o maravilhoso diretor de cena, um grande talento! Ele criou uma saída para uma situação cada vez mais enroscada, muito bom! Triste que ele se foi tão cedo, é a vida…

    Agradeço ainda vc ter lembrado de me mandar essa história que mostrou o outro lado; nunca ninguém comentou nada disso comigo, adorei e fiquei realmente comovida com a lembrança.

    Um grande abraço!

    Marizinha

  6. Flávio Soares de Camargo 28 janeiro, 2024 at 05:25 Responder

    Otima lembrança de mandar para a Marizinhala!
    Gostoso relembrar fatos curiosos e divertidos da vida, na fase em que estamos!
    Ela foi a rainha da festa!
    Homenagem justa!!

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