segunda-feira, fevereiro 26

Plantão de psiquiatria, por Joel de Mello Franco

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Lá pelo terceiro ou quarto ano, levado pelas mãos do Chico (*),  dei meu primeiro plantão de psiquiatria numa fazenda em Mairiporã. Ia de ônibus + táxi, pois nem carro tinha.

Eram cinco alas: E, D e C, para casos menos agressivos, e B e A, para os maios perigosos. Tudo fechado com muros de mais de três metros, separados por um gramado, onde os internados tomavam sol, sob rígida vigilância.

O plantão começava às dezenove horas, e lá pelas vinte e trinta,  entrei no pavilhão B, aberto por um enfermeiro. Mediquei e saí para o pátio, em direção ao A, o mais perigoso de todos.

Sim, estava com medo, muito escuro. Tanto, que tive a impressão de ouvir passos atrás de mim. Apertei os meus, já na certeza que não era só impressão.

Antes da entrada, tinha uma escadinha com dez a doze degraus. Subi correndo e, ofegante, virei-me para enfrentar a morte! Era um gigante, meio babando, que subiu devagar, pegou-me uma das mãos, nem lembro qual, e beijou-a.

Logo em seguida, a porta foi aberta por outro assustado enfermeiro.

É por isso que, como meio doido, gosto muito deles.

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Outra lembrança do mesmo hospital psiquiátrico:

Eu já estava tão “craque”, que apitava o jogo de futebol de campo dos hebefrênicos contra os catatônicos.

Não conseguia apitar de tanto rir!

O hebefrênico dava uma paulada no catatônico, que subia girando por uns três metros e, ao cair, continuava correndo.

Invariavelmente, terminava o jogo aos trinta minutos do segundo tempo, senão “sobraria” para mim…

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(*) Nota do Editor:  Francisco José Carchedi Luccas

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