domingo, julho 14

PROVÍNCIA, por Eduardo Berger

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Com poucos anos de formados, associados a um pequeno grupo de médicos e investidores, eu, Ranoya e Lobo enveredamos pelos caminhos da “medicina de grupo” – foi a Help Assistencia Médica, sediada num belo conjunto de sobradões da Av Euzebio Matoso, São Paulo. A coisa cresceu e nós, tal qual “rato que ruge”, passamos a ser concorrentes das gigantes Samcil, Interclínicas, Amico… imagine!

Pois bem, aí por volta dos meados dos `70, abrimos duas clínicas filiais, uma em Santo Amaro, chefiada pelo saudoso Ranoya, e outra em Santo André, por mim.

Confesso que me foi muito sofrida aquela experiência – morava em Itapecerica da Serra, saia de madrugada, era uma longa viagem, o trânsito infernal; habituado a uma atividade assistencial intensa, vi-me submetido a terrível monotonia, todas as manhãs aquela modorra, com um número muito reduzido de pacientes – a maioria fora da minha especialidade. Tenso. Ganhei uma úlcera duodenal (rapidamente resolvida – nunca mais me incomodou). Quem poderia imaginar que algo interessante, profissional ou cientificamente, poderia ali ocorrer? Vou contar dois atendimentos que foram marcantes:

PRIMEIRO:

Chega um moço (ambos o éramos… eu trinta e pouquinho, ele uns 20) alto, sobrepeso discreto, gagueja: -“Ahn! Quer dizer… não sei como falar, doutor… tenho vergonha”! -“Fique tranquilo, rapaz, Aqui é igual a um confessionário, sou médico, pode me contar”. -“Doutor… o pessoal zoa comigo. Sou gavião da fiel, sou obrigado a usar a camiseta da associação dois números acima do meu, senão eles me gozam”… – e completou, em voz bem mais baixa, nitidamente deprimido, olhando pro chão – “eu tenho seios”!!

Inicialmente, aliás como sói acontecer, é um péssimo hábito em nossa classe, não acreditei muito no relato, e até mesmo lhe disse que isso era normal, que eu também tinha um acúmulo de gordura nas regiões das mamas, etc… E ele: -“Doutor, o senhor não me entendeu, estou desesperado, o senhor precisa resolver meu problema, eu TENHO SEIOS”! Ato contínuo, solicitei que ele tirasse a camisa para que pudesse examiná-lo; ele o fez lentamente, com nítido constrangimento e… ele tinha um par de seios maravilhosos! Gente, pode crer, eram opulentos, perfeitos, como os de uma modelo-fotográfica!! Atônito, pedi que ele arriasse as calças e a cueca e… MEU DEUS! Naquela ridícula e provinciana clínica, no atendimento a um paciente de rotina, eu reconheci uma “figura dos livros”

Síndrome de Klinefelter

Observei sua distribuição pilosa, a bacia ginecóide, o pênis diminuto e, quando palpei seus testículos, do tamanho de feijões, o rapaz falou: -“é doutor, o senhor está vendo, eu nunca serei pai, não é mesmo? Mas isto não me incomoda, não me deixa triste. Eu só preciso muito que o senhor me tire os seios, por favor, já estive em outros médicos, convênios, serviços públicos… falam que não é possível, que é estética”…

O drama do tal me comoveu – extirpei-lhe as glândulas incômodas, infames, e ele pode vestir, com orgulho, a camiseta dos Gaviões aderida ao peito. Poderia serm também da Mancha Verde – igualmente ficaríamos, ele e eu, felizes.

SEGUNDO:

-“O senhor é gastro, não é”? – me inquiriu o responsável pelo Departamento de RH de importante empresa do ABC – “poderia atender meu velho pai? Ele chega do interior da Paraíba, semana-que-vem, vai passar uns dias comigo, não tem direito ao convênio, mas queria que o senhor quebrasse esse galho”!

Bóra, lá – é nossa sina… -“atendo, sim”.

Prestigiar o cliente da HELP, garantir o contrato, agradar os sócios…

Chega o dia. O ancião nordestino (teria à época pouco menos idade da nossa, nos dias de hoje), matuto mesmo, quando lhe perguntei o motivo de sua consulta, logo me disse: -“Dotô, veja bem, fale alto porque eu sô môco”! Ok, ok! deficiente auditivo, tenhamos paciência… e o atendimento, algumas vezes interrompido para que eu repetisse as perguntas e as orientações prescritas, prolongou-se significativamente para que ele pudesse entender como cuidar de suas queixas dispépticas. Ao término, curioso, eu indago sobre sua surdez. Poucas informações… Nosso otorrino frequentava a clínica apenas uma vez por semana, mas eu tinha acesso a seu otoscópio: -“Deixa eu dar uma olhadinha”.

Meto o aparelho no seu conduto e cadê o tímpano? “Meodeos”! Fragmentos de algodão, pedaços de palitos de fósforo, cerúmen, “entupimento total”. Lavo-lhe as orelhas e aquele material todo vai saindo, vai saindo, até que ele exclama: -“Eu num sô môco! Eu num sô môco”! Rolam algumas lágrimas – dele é claro (as minhas eu segurei).

Valeu!

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