terça-feira, junho 25

O Show Medicina e a “Batalha da Maria Antonia”, Eduardo Berger

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Reproduzo um pequeno texto baseado em dados do Google:

“No dia 3 de outubro de 1968, alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP entraram em conflito com estudantes da Universidade Mackenzie. As instituições eram vizinhas, localizadas na Rua Maria Antonia, Vila Buarque. O embate acabou com um estudante secundarista morto e dezenas de feridos. O edifício da USP foi depredado e incendiado”.

(na foto o prédio restaurado).

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Vivíamos um conturbado momento da história do Brasil (“os anos de chumbo”); aquela triste 5ª feira de outubro, quando nossa turma cursava o 5º ano do curso médico, ficou, também, indelevelmente marcada em minha memória.

Já estávamos acostumados, era assim há muito tempo; e assim houvera sido nos quatro anos anteriores, desde o nosso de calouro: sempre, na primeira quinta feira do mês de outubro, era levado à cena o tradicional Show Medicina – e todos sabem o quanto me dediquei a ele.

Pois bem, quis o acaso que Show Medicina/1968 (“o meu Show”, era eu o diretor) e “Batalha da Maria Antonia” ocorressem no mesmo dia. Naquela tarde, o combate entre mackenzistas e uspianos rolava solto, enquanto nós, alheios aos acontecimentos, seguramente “matando as aulas”, estávamos empenhados nos preparativos do Show de logo mais. Quem participou e/ou acompanhou, sabe das dificuldades, da verdadeira “guerra” que tínhamos de vencer para levar a cabo a tarefa de fazer o Show ocorrer.

Assim, podemos dizer que naquela tarde, “duas guerras” ocorriam: uma, violenta, agressiva, por motivos políticos e ideais antagônicos; a outra, motivada por um ideal artístico e de manter o espírito e a tradição de uma instituição da nossa escola, o Show.

Passaram-se algumas horas… O relógio marcava 20h30, ou coisa assim. A platéia do “sagrado” Teatro da FMUSP já lotada de alunos, professores, servidores, etc, todos ávidos pelo início do Show; muita farra, muita alegria, muitos cantando as clássicas musiquinhas, batendo palmas e o talco, ah o talco! Esse rolava solto! Nos bastidores, mais precisamente fundos do teatro e corredor da Anatomia Patológica (o eterno agradecimento ao Professor Constatino Mignone!), cenaristas terminando os retoques de pintura, maquiadores trabalhando naquelas “caras juvenis, mas já barbadas”, tentando transformá-las em “rostinhos de meninas”, contra-regras agitados, ordenando os materiais para as cenas – fantasias, utensílios, móveis, etc; todos envolvidos, enfim, numa azáfama, numa correria, numa luta!

E o diretor, como em todas edições do Show, tentando coordenar uma agitação caótica, controlar o “incontrolável”…

Naquele momento, eu transmitia a todos “o recado final”, aquele que havia aprendido com os diretores dos anos anteriores; subi numa cadeira e mandei: “- O Show vai começar! Não se esqueçam, aqueles que fizerem papéis femininos, de colocar um calção por baixo dos vestidos… E, a partir desse momento cada um é diretor de si mesmo! Todos devem dar tudo de si para que o Show seja lindo! SALVE o SHOW!!”

Aí, seria só dar início ao espetáculo, Mas…<

Eis que aponta no corredor, vinda do hall do térreo, uma comissão do C.A.O.C. liderada pelo seu Presidente, nosso querido colega Franklin (com ele, Luiz Massami Takaoka e mais um ou dois). Pronto! Encrenca à vista… Nunca se admitiu que alguém que não fosse do Show, tomasse conhecimento de nada dos bastidores, dos preparativos; era tudo secreto, até que fosse apresentado no palco, no “grande dia”. Além disso, temia-se que o mesmo antagonismo havido na Maria Antonia pudesse se estabelecer (felizmente, isso nunca aconteceu entre nós!). Nosso diretor da contra-regra, o não menos querido Zeca Porto, e mais alguns, se agitaram, começaram a falar alto, tensão no ar – mas consegui apaziguar… – ”Vamos ouvi-los, amigos, vamos saber o que traz esses colegas até nós”. Foi quando ficamos sabendo pelo Franklin: – ”A classe estudantil está de luto, morreu um estudante num combate que terminou há poucos instantes, talvez fosse melhorar suspender o Show…”, etc, etc – foi só nesse momento que ficamos sabendo dos lamentáveis acontecimentos da Maria Antonia.

Ponderei que o espetáculo não pode parar – “the show must go on” – que apesar de entristecidos com a ocorrência, faríamos como o “palhaço que precisa fazer o povo rir, ainda que seu coração sangre pela perda de um ente querido”.

Felizmente, o impasse terminou bem, sem atritos e o Show começou – e terminou bem!


a propósito aí está um revival de nosso show de encerramento 1969

4 comments

  1. admin 22 março, 2018 at 23:47 Responder

    Belo relato Berger, o Diretor do Show e o Presidente do C.A.O.C.: 52a em ação. Gente precisamos incrementar nossas histórias. Nossas memórias estão crescendo!! Murilo, Egídio, Lalaina, estamos esperando. Penso que um breve relato de cada membro, descrevendo sua trajetória pessoal e profissional até nossos dias, como o Franklin, fez seria muito bem vinda. Cury, Otávio, Lobo, Nese. Décio véio, Velho Macedo… (Roberto Anania de Paula – jan/2018)
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    Estas historias me emocionam. Parabéns maninho Berger pelo equilíbrio e maturidade da sua atitude no episódio. (Decio Kerr Oliveira – jan/2018)

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