quarta-feira, fevereiro 28

A CHEFIA DOS RESIDENTES, Roberto Anania de Paula

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No período de 1971/1972, assumi a Chefia dos Residentes do HC.
Recebi o cargo do Álvaro Lucas Cerávolo, o “Bilú” e transmiti para o Uenis Tanuri.
Até esta ocasião, cabia ao chefe participar de aspectos administrativos junto à Comissão de Administração do Serviço de Estagiários – CASE – que incluía internos, residentes e estagiários oficiais. Além disso, cabia também juntamente com Dona Ione, funcionária do HC, zelar pela convivência no antigo prédio de moradia dos internos e residentes. Tratava-se daquele prédio atrás do Instituto Central com 6 pavimentos, cujos elevadores paravam no meio dos andares e o sexto andar era reservado para as ”meninas”.

Como regalia, o Residente Chefe ocupava um apartamento no quinto andar de frente para as escadas. Não recebia nada além, mesmo porque os residentes recebiam “um salário mínimo” mensalmente, além de 2 calças, 2 camisas e 2 aventais. 1% do valor total das bolsas era destinado para estas responsabilidades e a chefia recebia este dinheiro diretamente na conta do Banespa da rua Augusta, discriminado como “repasse da residência”. Recebi umas migalhas do Bilu e repassei um bom dinheiro para o Uenis. Nesta ocasião o HC pertencia à Casa Civil do Governo do Estado e estas contribuições não exigiam nenhuma prestação de contas ao estado.

Para executar esta difícil e as vezes conflituosa função entre os interesses do Hospital e dos colegas, segundo o Diretor Dr. Geraldo Silva Ferreira, solicitei a colaboração do Ranoya nas questões políticas do Hospital e do Verani no lazer e convivência do prédio da residência. Assim as coisas corriam sem problemas e com reuniões semanais divertidas no CASE, pela presença do “Tião Medonho”. O Professor Sebastião de Almeida Prado Sampaio, Titular da Dermatologia, conhecido como tal, era o presidente da comissão. Creio que este apelido era devido a sua maneira “acaipirada” de falar, sua cabeleira pintada e as posições esdrúxulas que tomava. Era contrário aos barbudos e cabeludos. Chegou até a punir o Dr. Flávio Queiroz, hábil cirurgião da 2ª C.C., que ensinava muito os residentes, a usar uma máscara cirúrgica tipo astronauta, para recobrir a barba que recusara cortar.

O Lepold Nossek da 54a turma , era o representante dos internos na comissão.
Então, neste mar de tranquilidade, de muita dedicação e aprendizado de todos: Bomba!!! Os internos resolveram entrar em greve em pleno regime militar. O Léozinho, queixava-se da falta de preceptoria, mas na verdade a questão era que os internos do 5º ano nada recebiam e os do 6º, metade de um salário. Começou a agitar para que os residentes parassem e, se isto acontecesse, o HC pararia.

Provavelmente muitos não sabiam à época mas existia um coronel que despachava junto à superintendência hospitalar. A ditadura militar comandando o hospital. Foi então que o coronel me convocou. Ao entrar na sala falou: “não precisa nem sentar. Se os residentes pararem não respondo pela sua integridade física”. Tentei argumentar que embora fosse contrário à paralização, era representante de uma classe e se a assembléia que iríamos convocar resolvesse acatar, os residentes parariam. “Então, o Sr. fique sabendo: se parar, não respondo por sua integridade física”, repetiu. Não olhou mais para mim e deixei a sala. No final daquela tarde, uma assembléia representativa afastou a possibilidade de greve. Nestes período de 2/3 dias, o Dr. Oscar Cesar Leite, Superintendente do HC por 2 vezes me procurou no alojamento pedindo pelo amor de Deus, para não parar o HC.

Após este episódio o Lepold foi interrogado por alguns dias pelos militares. Não me recordo se continuou representante dos internos. A verdade é que nesta época, não sabíamos quem era quem. Por vezes fui procurado sempre à noite em plantões do PS, por residentes ou estagiários de outro estados pedindo informação e proteção. Numa delas, alguém se aproximou de mim e disse: “Companheiro, preciso sumir. Peço sua ajuda”. Sem olhar, enfiei a mão no bolso, pois tinha recebido o “soldo”, e pequei uma nota, sei lá, como se fosse hoje R$ 100,00 e dei a ele , sem ao menos olhar quem era. Fiquei uns 10 dias sem dormir direito e, até hoje, esta cena me vem às vezes com uma lucidez total.

Uma semana depois, procurei o Dr. Oscar Cesar Leite, para pedir aumento da bolsa dos residentes. Ele disse que iria marcar uma conversa com o Dr. Henry Aidar, Chefe da Casa Civil do Governo, são paulino roxo e nascido em Olimpia SP. Dias depois, lá fui eu com motorista do HC ao Palácio dos Bandeirantes. O diálogo foi mais ou menos assim: ‘Dr. Henry, nós 2 somos são paulinos, nascemos na mesma região, o Sr. em Olímpia e eu em Barretos, cidades vizinhas… O fato foi, que saí de lá com a bolsa dos residentes aumentada e aumento de 3% na contribuição mensal. Tudo na minha conta !!! PQP, a residência ficou rica!!! O Verani fez uma farra. Comprou Tv Telefunken colorida, aparelho de som da última geração, coleção de discos clássicos e músicas que só um apaixonado como ele conhecia. Tudo no prédio do alojamento. E mais, fornecemos capital de giro para que o Sr. Waldemar, funcionário do HC que comandava uma cozinha no térreo, a transformasse num bar/restaurante com cerveja e comida bem baratos. Aquilo ficou tão bom e barato (a matéria prima vinha do HC), que tempos depois mesmo o pessoal do HC ia jantar lá. O Lincoln Pinto Vallada, tomou “porres” homéricos ali, afogando as mágoas de um amor não correspondido.

Ao término da gestão o setor de convivência articulou uma festa magistral na Pizzaria do Baccalá, numa segunda feira quando o restaurante não abria.

Mais isto, é matéria para um outro “causo” e fotos: TODOS JUNTOS NA 52ª TURMA

1 comment

  1. admin 22 março, 2018 at 23:28 Responder

    Que relato significativo, quantas lembranças. Valeu parceiro Anania! (Eduardo Berger – 2017)
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    Belíssimos comentários, Anania. Que tempos bons. Fizemos sim, e juntos, a festa na Residência, equipando-a totalmente com biblioteca, boa música, para os momentos de lazer. Carpete e móveis da Hobjeto. Quando vinha alguém da Casa Civil para “sondar” o ambiente, Dona Ione me chamava e mostrávamos as “conquistas “. Uma vez veio um cara do Governo do Estado, e eu sabia de sua preferência por Bach, pois tinha visto uma sua entrevista na TV. Ao entrar na sala de música, eu havia colocado antes um dos Concertos de Brandenburg, de Bach, e o cara vibrou: “Bom , finalmente temos médicos certamente competentes e, seguramente, cultos”. Ganhamos sua simpatia. (Eduardo Verani – 2017)
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    Muito bom Anania! (Murilo Pereira Coelho – 2017)

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