quarta-feira, fevereiro 28

Gargalhar a “bandeiras despregadas”, Eduardo Berger

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Cena hilária, numa certa madrugada no pronto-socorro de cirurgia, ocorrida em meu internato: duas macas postas juntas, lado-a-lado, dois pacientes alcoolizados nelas deitados, ambos com belos ferimentos no couro cabeludo e, procedendo a suturas, um interno em cada cabeceira. Não me lembro quem era o outro (creio que se identificará ao ler o relato desse “causo”)…

Em dado momento, quebra-se o silêncio, com voz pastosa e em ritmo sincopado, o “meu” ferido: -“levei uma facada na cabeça”… ao que, o outro, com evidente espanto, exclama: -” Na cabeça!! Não, isso não pode… eu levei uma paulada na cabeça”. Mais alguns segundos e o primeiro reafirma: -“Na cabeça… facada na cabeça”. O segundo, mais espantado ainda: -“NA CABEÇA! Não acredito”! E assim foi, repetidamente, os dois, cabeças cobertas pelo campo cirúrgico, não se viam, mas se ouviam… e o diálogo monocórdico segue-se por mais algumas vezes, e as risadas vão contaminando médicos e funcionários de enfermagem.

Aí pararam… fez-se silêncio por alguns minutos… e eu, ainda suturando, resolvi estimular: -“O que aconteceu com você”? Ele: “- Levei uma facada na cabeça”! O outro quase cai da maca de tanto espanto: “-NA CABEEEÇAAA”!! E o diálogo entre ambos se reinicia… repetidamente. Mais alguns minutos, e eu repito a indagação e segue-se, a mesma cena! Quantas risadas!

Certamente, é muito difícil transmitir numa redação a insólita, mas impagável, cena daquele plantão. Rimos a “bandeiras despregadas”, como diriam nossos avós.

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