quarta-feira, fevereiro 28

O CEU NÃO É ASSIM BONNO VAN BELLEN

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Chamava-se Frank, era um judeu alemão, radicado no Brasil desde os anos 50, casado com uma brasileira. Pessoa muito simpática, agradável e culta. Boa conversa. A queixa era de claudicação numa das pernas e o exame denotava doença obstrutiva da artéria femoral. Depois dos exames feitos e da avaliação clínica, foi submetido a um by-pass fêmoro-poplíteo com veia safena e ficou bom, Conseguia andar as distâncias compatíveis com sua atividade diária e social e vinha regularmente para revisão. Estabeleceu-se boa relação médico-paciente e eu gostava muito dele. Depois de uns 2 ou 3 anos ele se queixou de claudicação na outra perna e sugeri que fizéssemos a mesma cirurgia: a condição era boa e certamente iria ter o mesmo resultado favorável. Marcamos a data da operação depois da avaliação dos exames pré-operatórios. No dia marcado para internar-se, não apareceu. No dia seguinte a esposa ligou. Explicou que tinha acontecido um problema e que o Frank viria conversar comigo dentro de uma a duas semanas. Efetivamente, veio. Pouco cabisbaixo, nervoso, parecia envergonhado. Veio sozinho. Começou a falar. Sabe doutor, eu não queria operar. O senhor sabe um pouco de minha vida: sou judeu, fui capturado pelos nazistas. Passei longo tempo em campo de concentração. Tenho meu número tatuado no braço. Consegui sobreviver. Vim para o Brasil onde me casei. Tenho dois filhos ótimos.Mas estou cansado. Quando me veio a perspectiva de novamente passar por uma cirurgia, resolvi que não. E mais, resolvi me suicidar. Já tinha essa ideia há algum tempo e fui guardando comprimidos entorpecentes num lugar de meu armário. Na véspera do dia da internação, antes de dormir,tomei os 60 comprimidos que tinha guardado aos poucos. Fui dormir depois de desejar boa-noite à minha esposa.

E ai ele abriu um largo sorriso. Na verdade, deu uma boa gargalhada.

E continuou: sabe doutor, quando acordei e olhei à minha volta, fiquei muito desapontado. Pensei, mas o céu é igual ao meu quarto! Não é possível. Acho que fui parar no lugar errado! Demorou até que eu entendesse que eu não tinha morrido. Deus não me quis ainda, e aqui estou doutor. Podemos marcar a cirurgia de novo?

Operamos e ele evoluiu muito bem.

Por alguns anos continuou passando em consulta.

Depois deve ter falecido pois não mais voltou

Com certeza está no Céu

1 comment

  1. Joel Faintuch 17 novembro, 2019 at 22:55 Responder

    O Bonno tocou num ponto relevante, ao descrever o suicídio (quase) do seu paciente. Autodestruição é um pensamento muito presente em traumatizados de guerra, notadamente em sobreviventes de campos de concentração nazistas. Estas pessoas possuíam um instinto de preservação fortíssimo, para resistir longos anos com trabalhos forçados e agressões diárias. Alimentando-se de um pequeno pão por semana (isto mesmo, a cada 7 dias), que eles quebravam em sete pedacinhos , além de uma tigela diária (uma só), de sopa de cascas de frutas ou verduras (só as cascas, nada mais). Contudo, abaixo da superfície restava profundo trauma e revolta, que não raramente se materializava em suicídio.

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