quarta-feira, fevereiro 28

O MOTOQUEIRO por BONNO VAN BELLEN

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O hospital era de periferia. Apesar de em tempos idos ter sido o orgulho da rede hospitalar da cidade, sediou uma das primeiras cirurgias de coração a céu aberto, decaiu até a periferia dos hospitais. Quando nos pediram para assumir o serviço de cirurgia vascular, o desafio foi reduzir o índice de amputações para uma cifra menor que 100%, já que todos os casos com isquemia de membros inferiores acabavam em perda de perna.

Não sei se conseguimos a chegar a alguma cifra alentadora, mas seguramente o hospital nos proporcionou uma das experiências mais incríveis em matéria de surrealismo. O nível de atendimento era inacreditavelmente baixo. Pior que isso, o pessoal não tinha a menor idéia que estavam trabalhando em limiar de qualidade abaixo de crítica. Não tinham nem boa vontade pois qualquer coisa a mais era exagero.

O paciente estava sendo submetido a uma cirurgia de aneurisma roto de aorta abdominal. Coisa grave. Precisa ter sorte, competência e vontade para tirar o paciente com vida da sala. O sangramento estava controlado, mas precisávamos de sangue, que estava demorando. A circulante e o anestesista cobraram incessantemente. Mas o banco de sangue não era dentro do hospital. Ia demorar mesmo mais um pouco. Viria com uma motocicleta. O rapaz estava com problemas. Mas assim que pudessem mandariam.

Paciência. As coisas até estavam correndo bem apesar da gravidade da situação. Passamos a inserir o enxerto até que de repente a porta da sala se abriu e entrou o motoqueiro em pessoa. Numa mão uma sacola com as bolsas de sangue. Noutra mão o capacete. Um blusão de couro no corpo. Calça Lee e botas enlameadas. Gorro e máscara, nada. Entrega o sangue ao anestesista que o olha boquiaberto. Como se fosse um ser extra-terrestre. Exige o recibo.

Quando o impacto inicial se desfez e ele começou a ouvir a saraivada de impropérios adequados para a situação, ele simplesmente nos olhou e deu de ombros, resmungando para a circulante alguma coisa como se não entendesse a fúria já que havia tanta pressa.

Ninguém nunca conseguiu explicar como é que ele tinha entrado no centro cirúrgico daquele jeito e muito menos chegado até a sala de cirurgia. Faltou entrar de moto.

O paciente não morreu. Nem nunca teve infecção. Foi salvo pela pressa do motoqueiro.

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